O projeto Brasil sem frestas busca melhorar a saúde pública, retirar do meio ambiente um produto de alta durabilidade e fazer reciclagem direta. Na prática, Maria Luisa, a idealizadora do projeto, vai até as casas e, com a ajuda de voluntários, faz a aplicação das chapas de caixas de leite para tapar as frestas. Para entender melhor como tudo funciona, acompanhei de perto a aplicação das chapas em uma casa.
O dia estava nublado, uma garoa ia e vinha durante a tarde. Juntamente com três agentes de saúde da Prefeitura Municipal de Passo Fundo, chegamos, no início da tarde, à pequena casa de Luciana Vieira Lopes, que mora com o marido e três filhos. Ao ser questionada se gostaria que sua casa fosse revestida com as chapas, sem pensar muito, ela aceitou. A casa tinha um espaço de aproximadamente 25m². Um cobertor servia como divisória do banheiro e o restante era somente um cômodo. Luciana contou que as crianças dormem no sofá e em um colchão colocado no chão.
Dentro da casa, que fica perto de um rio, era possível sentir o vento que passava pelas frestas e deixava a casa mais gelada. Com as chapas prontas, o trabalho consistia em aplicá-las da melhor maneira possível, para que todas as frestas desaparecessem. Ajudantes não faltavam: eram oito pessoas participando da ação. Os móveis foram arrastados e as chapas começaram a ser aplicadas. Martelo, grampeadores, grampos, tesoura e escadas eram as munições para que o trabalho pudesse ser bem realizado. A dona de casa acompanhava a aplicação das chapas juntamente com os filhos. As paredes e o teto iam ganhando uma nova aparência e, a cada chapa colocada, a sensação da temperatura e de estar em um lugar mais aconchegante aumentava.
Apesar do empenho de todos, não foi possível terminar em uma tarde a aplicação em toda a casa. Mas havia uma certeza: naquela noite, a família já dormiria em um lar mais aconchegante. Maria Luisa calculou que, depois de totalmente revestida, seriam usadas 100 chapas na casa. Cada uma feita com 12 caixas. Ou seja, são 1.200 caixas – que demorariam 100 anos para serem consumidas – sendo recicladas diretamente.
Aquela era uma família diferente, que vive com uma situação financeira diferente, mora em um bairro diferente. É uma família diferente da minha e, quem sabe, da sua também. Uma experiência como esta proporciona uma reflexão muito válida. Foi gratificante ver de perto que, graças ao projeto, as frestas não estariam mais presentes naquela casa.


