Histórias Cruzadas

O ponto de vista de mulheres negras na luta contra as políticas raciais mostrado de forma simples e objetiva 

Uma forma diferente – e feminina – de abordar os temas raciais. Essa é a proposta de Histórias cruzadas (The help na versão original), que, ao contrário de outros filmes que tratam de discriminação racial, como A cor púrpura (1985) – que retrata a vida de uma jovem negra e todas as suas dificuldades – vai além das individualidades e mostra a relação entre empregadas e patroas – negras e brancas. A intenção fica clara quando se percebem a predominância do ponto de vista feminino e a ausência de personagens masculinos, que aparecem como meros coadjuvantes, em uma sociedade na qual mulheres solteiras também eram discriminadas, porém não tanto quanto qualquer negro.

Baseado no best-seller homônimo de Kathryn Stockett, Histórias cruzadas é ambientado em uma pequena e atrasada cidade no sul dos Estados Unidos, no início dos anos 1960, no auge das políticas raciais. O filme mostra a jovem Skeeter (Emma Stone), uma garota branca, que volta da faculdade decidida a ser escritora e encontra nas histórias das domésticas negras sua inspiração. A intenção da jovem é mostrar, em um livro, o lado das empregadas em suas relações mais íntimas, desde o sentimento que nutrem pelos filhos das patroas que criam até a impossibilidade de usarem os mesmos banheiros dos brancos. Suas principais aliadas são Aibileen (Viola Davis) e Minny (Octavia Spencer).

Como seria de se esperar, é uma história comovente, mas um pouco arrastada. Falta um ritmo mais intenso que justifique suas mais de duas horas. O filme peca, também, na maneira como aborda o tema. Acaba apresentando-o de forma simplista, dando a impressão de que se trata apenas de mais uma bela história e qualquer discussão mais aprofundada é exagero. Apesar de ser um assunto que sempre provocou inúmeras discussões, a função de Histórias cruzadas é muito mais emocionar do que incitar grandes reflexões no público.

O destaque fica mesmo por conta das atuações – não de Emma Stone, que fez o seu trabalho direito, mas sem grandes surpresas – e sim das atrizes coadjuvantes Viola Davis e Octavia Spencer. Davis – em sua grande e merecidamente premiada atuação – confere emoção ao filme e é responsável pelas passagens mais comoventes ao contar as histórias da personagem de forma calma e sofrida. Já Spencer nos diverte: sua personagem dá certa leveza à trama. Outro destaque é Bryce Dallas Howard, no papel de Hilly Holbrook, que consegue transmitir tamanha maldade que é quase impossível não odiá-la.

Indicado ao Oscar de melhor filme em 2012, Histórias cruzadas é dirigido pelo iniciante Tate Taylor (Pretty Ugly People) – que também é responsável pelo roteiro – e foi uma das grandes surpresas do ano. Ficou três semanas no topo das bilheterias nos Estados Unidos despertando o interesse do público e da crítica, mesmo não tendo um grande nome no elenco que pudesse levar tanta gente ao cinema. É uma bela estreia, simples e sem exageros, mas que deixa transparecer a inexperiência do diretor e acaba valendo muito mais pelas interpretações do que pelo modo como o tema foi abordado.  Se considerarmos que a interpretação é um importante complemento da narrativa, mas não a função essencial do filme, o saldo final é menor do que se poderia esperar de uma história tão valiosa.

[xrr rating=3/5]
Rolar para cima