A invenção de Hugo Cabret

Um menino órfão que vive no metrô de Paris consertando relógios. Seria uma história infantil qualquer se não fosse contada por Martin Scorsese e algo contraditório quando se fala no diretor de filmes chocantes e perturbadores como Gangues de Nova York, Taxi Driver e A Última Tentação de Cristo. Em seu primeiro filme em 3D, adaptado do livro A invenção de Hugo Cabret de Brian Selznick., Scorsese, um incorrigível apaixonado por cinema, revive os primeiros truques usados nas telas pelo célebre George Mélies em uma bela homenagem ao homem que via o cinema como uma fábrica de sonhos. O sonhador agora é outro, mas a essência continua a mesma, com um pouco mais de tecnologia talvez.

Para reviver esses sonhos, o cenário escolhido por Scorsese é a Paris dos anos 30. Hugo (Asa Butterfield) é um jovem órfão que recebeu de herança do pai (Jude Law), relojoeiro, a habilidade com engrenagens e um misterioso autômato, uma espécie de máquina em formato de menino. Consertar essa máquina é um de seus objetivos, já que o menino acredita que ela tenha uma mensagem do pai. Para isso, rouba pequenas peças de uma loja de brinquedos da estação, sem saber que seu dono é George Méliès (Ben Kingsley), o cineasta responsável pela criação de cerca de 500 filmes e que caiu em esquecimento quando seus truques foram sendo superados pelos de seus sucessores, entre eles Charles Chaplin, para quem o próprio Méliès serviu de inspiração.

Hugo faz Méliès (e o público) reviver seu passado de glória que ele tanto insiste em esquecer. Assim, ao longo do filme, Scorsese dá pequenas aulas sobre cinema. Desde a primeira apresentação dos Irmãos Lumiére – com o filme que mostrava o trem chegando à estação e que fez o público desavisado sair correndo com medo de ser atropelado – assistida por Méliès, até os estúdios onde levava seus pequenos truques de mágica – sim, Méliès foi mágico antes de se tornar cineasta – para as telas, criando uma atmosfera de magia e encantamento com os primórdios da sétima arte. Algo que Scorsese relembra ao mostrar cenas do conhecido Viagem à Lua (1902), um dos poucos filmes de Méliès que sobreviveu ao tempo e ao esquecimento.

O fato de Hugo ter conquistado todos os prêmios técnicos aos quais estava concorrendo no Oscar mostra que os truques evoluíram muito e que a inserção de Scorsese no universo 3D deu certo. Não ter sido consagrado como melhor filme é um mero detalhe diante da emoção que a obra provoca no público. E assim, contando a história de Hugo e Méliès, além de uma bela homenagem ao homem que compartilhou seus sonhos com o mundo, Scorsese nos faz querer reviver a época em que as trilhas sonoras eram feitas ao vivo, os cortes eram minuciosamente elaborados e o próprio cinema era um truque de mágica ainda não revelado. Sorte nossa que ainda existam mágicos dispostos a brincar com a nossa imaginação.

[xrr rating=5/5]
Rolar para cima