A falta de Érico Veríssimo
Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de sexta-feira.
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.
Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda – como tarda!
a clarear o mundo.
Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente.
Falta o casal passeando no trigal.
Falta um solo de clarineta.
(Carlos Drummond de Andrade)
Arrisco dizer que ventava em dezembro de 1905, como um prenúncio de uma data importante. No pampa gaúcho, na cidade de Cruz Alta, nascia o escritor que ultrapassou as fronteiras rio-grandenses, passeou por entre fronteiras brasileiras. Traduzido em 16 idiomas, foi além, não parou por aqui. O vento, forte, constante e permanente, anunciando a chegada daquele que (d)escreveria a vida. Anunciando a chegada de Érico Veríssimo.
Taciturno, calado, introspectivo. Érico revelava a vida além da fala. Preferia o lápis, o papel, o rascunho. Apagar, refazer, reajustar. Deixadas em um porão na casa dos Veríssimo, as relíquias do escritor caracterizam alguém preocupado em buscar a perfeição. Perfeição de um personagem. Perfeição de um ambiente. Perfeição de uma situação. Colando pedaços de suas experiências, Érico Veríssimo contou história, virou ícone, desenhou o Rio Grande. Seus personagens, mais humanos, mais passionais, pecadores, retratam a dura realidade da vida que, ao passar por cada um, arranca e acrescenta emoções. Érico fazia dos versos uma biografia da vida, autobiografando-se ou biografando amigos, parentes, pessoas, enfim. Envolveu leitores, telespectadores, críticos de cinema e platéia de teatros. Sua linguagem – envolvente, por vezes dramática, com ares de suspense – passeou pelo Romance, pelos contos e novelas. Entre idas e vindas, bons e maus momentos, Érico e sua família mudaram-se para Porto Alegre, voltaram à Cruz alta, e tentaram nova mudança em vão. Toda a experiência sendo guardada nos cantos da memória, transcrita para a folha, impressa no livro.

A escrita entrou em sua vida em 1922 quando, escondido, traça suas primeiras linhas. Os primos seriam seus primeiros leitores. Os jornais seriam seu primeiro lar. Desde criança, Érico devorava livros. Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Oswald de Andrade. Adentra ao universo das traduções através de Edgar Wallace e Aldous Huxley. Chegou a ser sócio de uma farmácia, bancário, trabalhou em uma seguradora. No entanto, infeliz, Érico muda-se, em 1930, – sozinho – para Porto Alegre. Viveria dos seus escritos. Então passa a conviver com escritores famosos, objetos de sua atenção nos anos anteriores onde os livros eram sua maior companhia. Além dos escritos, no ano seguinte – 1931 – Érico tem nova companhia. Casa-se com Mafalda Halfen Volpe, aquela que seria, até o fim de sua vida, companheira e incentivadora. Em 1932 lança seu primeiro livro – “Fantoches”. O livro encabeça a extensa lista da obra de Veríssimo. Pequenos contos, histórias, experiências destinadas ao teatro. Érico é assim. Transita facilmente das linhas para as telas e das telas para os palcos. “Olhai os lírios do campo”, “Clarissa”, “Incidente em Antares” ajudaram a definir a imagem que temos hoje de Érico. No entanto, foi só na saga “O tempo e o vento” que Érico realizou-se. Certa vez, Érico disse que todo o escrito antes da obra era exercício: “Exercício para o livro que se
mpre quis fazer”. Retratar 200 anos de história, em duas mil páginas e três volumes realizou Érico e o leitor que sentiu-se parte de um universo completo. Segundo os críticos, apesar de José de Alencar e outras experiências foi só em Érico Veríssimo, com “O tempo e o vento” que o romance histórico se concretizou. Em casa, Érico pensou em tudo. Mapas, ruas das cidades cuja história narrava, personagens. Detalhadamente esmiuçou a vida. A de Capitão Rodrigo. A minha e a sua.
Capitão Rodrigo, Ana Terra ou Clarissa. O índio Pedro ou habitantes de Antares. Uma parte de nós incutida em personagens escritos há tanto tempo. Érico é atemporal. Resumi-lo como pertencente à segunda fase do modernismo não basta. Suas histórias se encaixam hoje. Se encaixarão amanhã. Jamais ocupante da Academia Brasileira de Letras, Érico Veríssimo revolucionou a literatura. Inovou a escrita, confirmou estilos e envolveu leitores. Pirisca Grecco, intérprete gaúcho, por ocasião do centenário da morte de Érico Veríssimo entoou a perda em uma letra. Ao fim, “uma música ao longe ecoou na imensidão. Talvez seja essa passagem, mais um livro a começar”.
Érico deixou inacabado o livro “A Hora do Sétimo Anjo”. Um enfarte, em novembro de 1975, impossibilita a conclusão do livro e a continuidade de uma história. Érico despede-se da vida deixando nela sua marca. Como se após seus escritos a vida ganhasse outro sentido. Ou ganhasse sentido. Talvez, nesse dia, o vento tenha se calado.
[stextbox id=”custom” caption=”Obra completa” float=”true” width=”550″]Contos: Fantoches; As mãos de meu filho; O ataque; Os devaneios do general; Chico
Romances: Clarissa; Caminhos cruzados; Música ao longe; Um lugar ao sol; Olhai os lírios do campo; Saga; O resto é silêncio; O tempo e o vento (1ª parte) — O continente; O tempo e o vento (2ª parte) — O retrato; O tempo e o vento (3ª parte) — O arquipélago; O senhor embaixador; O prisioneiro; Incidente em Antares;
Novela: Noite;
Literatura infantojuvenil: A vida de Joana d’Arc; As aventuras do avião vermelho; Os três porquinhos pobres; Rosa Maria no castelo encantado; Meu ABC; As aventuras de Tibicuera; O urso com música na barriga; A vida do elefante Basílio; Outra vez os três porquinhos; Viagem à aurora do mundo; Aventuras no mundo da higiene; Gente e bichos
Narrativas de viagens: Gato preto em campo de neve; A volta do gato preto; México; Israel em abril
Autobiografias: O escritor diante do espelho; Solo de clarineta – Memórias (1º volume); Solo de clarineta – Memórias 2 (ed. póstuma)
Biografia: Um certo Henrique Bertaso
Compilações: Obras de Erico Verissimo (17 volumes); Obras completas (10 volumes); Ficção completa (5 volumes)
[/stextbox]