Onde o Google não tem vez

Fomos em busca de relatos da vida longe do movimento e do barulho da cidade.

Os avanços tecnológicos não param, mas isso não quer dizer que chegam a todos os lugares. Para as novas gerações parece impossível a vida hoje sem celular, IPhone, computador e claro, internet. Mas ainda é possível – e existe – vida sem o Google. Qual seria a face da vida em meio a natureza? Nós tentamos pintar esse retrato.

Passava das duas horas da tarde quando pegamos a estrada rumo ao interior da cidade de Espumoso, município  no norte do Rio Grande do Sul com 15.240 habitantes (IBGE 2010). Fomos em busca de relatos da vida longe do movimento e do barulho da cidade. Sem  irmos muito longe, encontramos aqueles que têm uma vida sofrida, condições precárias e más instalações elétricas.

A dezessete quilômetros da cidade  encontramos Juliana Camargo da Silva. Casada há dez anos, grávida de três meses do primeiro filho, é moradora da localidade de São Domingos há um ano. O casal morava na cidade, mas trocou com o avô do marido dela. Foram para o interior e ele foi para a cidade.  Juliana trabalhava no hospital, mas afirma que prefere a vida de agora, mais sossegada em comparação com a correria da cidade.

No entanto, por ter uma gestação de risco, Juliana se desloca para a cidade até três vezes por semana. Antes de engravidar o deslocamento acontecia com menos frequência, iam até Espumoso apenas uma vez a cada sete dias.  Apesar de ter uma vida mais tranquila, de plantar a maioria dos alimentos que consomem, a moradora diz sentir falta de uma coisa no interior: “segurança, na cidade a gente estava mais seguro, tinha os vizinhos. Aqui, não temos ninguém por perto”, diz Juliana. “Logo que mudamos, nossa casa foi assaltada. Os bandidos arrombaram a porta e levaram o congelador, duas televisões, uma espingarda, motosserra e até a ordenhadeira”.

Isolados e Desconectados

Continuamos o caminho e três quilômetros à frente paramos na propriedade de dona Anita Henerich Presser de setenta e quatro anos. Havia duas casas na propriedade. Além de dona Anita, ali também mora seu filho e a família. Conversamos com a dona da casa e sua nora, Jocelia Presser, que nos recebeu.

Sentada ao lado do fogão a lenha, na cadeira de balanço da cozinha escura, Dona Anita nos contou um pouco sobre sua vida. Ela mora ali há 35 anos e  nunca morou na cidade,  mesmo assim afirma que não trocaria a vida do interior por outro lugar.

Quando perguntamos quais as melhorias que ela acha que deviam ser feitas para facilitar a vida dos moradores do interior, D. Anita não pensa duas vezes antes de responder: “as estradas do interior precisam ser melhoradas e eu por exemplo, preciso de uma assistência médica mais próxima da minha casa, é ruim e difícil me deslocar até a cidade”.

Jocelia, a nora de dona Anita, tem uma filha de dezesseis anos, Roberta. Por não ter como sair para frequentar as festas que os adolescentes da sua idade costumam ir na cidade, a adolescente fica em casa nos fins de semana. Sem acesso a internet em casa, Roberta depende da escola para ter acesso a um computador conectado à rede. Supõe-se então, que dificilmente ela está ‘online’ no MSN, Orkut, Facebook, no Twitter ou em qualquer outra rede social como fazem os jovens da sua idade.

Ligamos para três escolas de Espumoso para perguntar se eles permitem que os alunos acessem redes sociais. A Escola José Clemente Pereira não permite aos alunos esse tipo de acesso. Já o Instituto Estadual de Educação Dr. Ruy Piégas da Silveira não consegue policiar os alunos de forma a evitar com que acessem essas redes. Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Alexandre Tramontini os professores fizeram um acordo com alunos: depois de terem feito as tarefas de aula eles podem acessar as redes sociais.

Seguindo a estrada rumo a divisa do município com Tunas, vimos propriedades com casas grandes e bonitas, com antenas parabólicas e antenas de canais via satélite,  mas também havia sinais de pobreza. Em busca de mais relatos, uma casinha em particular, na beira da estrada, a 23 km da cidade, nos chamou atenção. Resolvemos parar e conversar com os moradores. Ao chegar em frente à casa, a porta estava aberta, no entanto nos pareceu que não havia ninguém até ouvirmos alguns murmúrios vindos do interior da residência. Com dificuldade, entendemos que a voz dizia que podíamos entrar. Adentramos no recinto e para nossa surpresa encontramos uma senhora caída no banheiro.  Surpreendidas pela cena, nossa primeira reação foi ajudá-la.

Levantamos e colocamos a senhora sentada numa cadeira. Ao ajudá-la observamos que Dona Maria tinha dificuldades para se locomover e também para falar. Apesar disso, ela nos contou sobre a vida sofrida que leva no interior.

Dona Maria teve 3 filhos, uma filha que mora em Marau, um filho mora próximo a sua casa e um mora na cidade de Espumoso. Este último quer levá-la para morar na cidade e ela quer muito ir, pois sofre vivendo no interior, onde sempre residiu e onde também já gostou de morar. Porém, agora ela precisa de atendimento médico e tem que se deslocar até a cidade de ônibus.

“Eu vivo caindo dentro de casa e  meu marido é ruim para mim, não me ajuda. Meu filho quer me levar para a cidade e eu quero ir com ele”.

Na casa vimos uma cadeira de rodas, mas não havia espaço para andar com ela lá dentro.O banheiro, visivelmente construído há muito menos tempo que o resto  da casa tem um degrau na entrada. Sem acessibilidade e sem vizinhos, Dona Maria está a mercê do destino, trancafiada no que deveria ser um lar.

Andamos ainda mais e bem próximo a divisa do município de  Espumoso com Tunas, marcada pelo Rio Caixão encontramos Geraldo, morador de uma casa simples, de madeira e sem pintura. Ele mora com a esposa e os 3 filhos, um de 6, uma de 2 e mais um que não chegamos a conhecer. As crianças estudam na Escola Henrique Schmitt, no Campo Comprido, também no interior de Espumoso. Eles vão para aula com o ônibus que passa a um quilômetro e meio da residência da família.

Seu Geraldo já morou na cidade, mas gosta de morar no interior, porém diz que “na cidade tem mais recursos, e aqui é longe de tudo e a estrada está muito ruim”. O morador cultiva milho, feijão, tem vaca de leite, galinhas e um boizinho. A esposa auxilia na lavoura, mas também tem a casa e as crianças para cuidar.

“Faltam muitas coisas para melhorar a vida dos que moram no interior, como a falta de calcário para os pequenos agricultores e ajuda para reformar a casa” acrescenta Geraldo. A família vai à cidade apenas quando precisa. Para usar o celular eles precisam subir um cerro, televisão apenas com a parabólica.

Enquanto isso, no caminho…

Também tiramos um tempo para dar uma olhada num cemitério antigo, banhado pelo sol que descia e que nos despertou curiosidade. Ele era cercado por um muro de pedras que se moldam em um arco sobre a estreita entrada. Abrimos o velho portão de ferro e entramos. O que encontramos no interior certamente nos chamou a atenção. Os túmulos novos, de mármore e com flores contrastavam com os antigos. Alguns dos túmulos antigos, para o nosso espanto estavam cercados com grades de ferro. Três deles, lado a lado, com cruzes de ferro e cercas idênticas. Até então ignorávamos aquilo. Teria um significado? E qual seria ele?

Fomos buscar ajuda dos mais velhos e a primeira pessoa a ser interrogada sobre o assunto foi a Delmári Favaretto, 47 anos, mãe de uma de nós e que foi nossa guia. A resposta que nos veio foi essa. “Quando eu era criança, me diziam que quando uma pessoa morria queimada, o túmulo era cercado e a cruz era de ferro”. Na segunda-feira perguntamos a Lisete Lúcia Corneli, gerente comercial de 48 anos, e a resposta já foi bem diferente. “Quando toda a família ia embora cercavam o túmulo para que ninguém tomasse aquele lugar. A cruz de ferro não se desmanchava como a de madeira”.

Rumamos de volta para a cidade no cair da noite e percebemos que a vida nas estradas do interior não está muito calma.

A noite veio enquanto andávamos e a partir daí encontramos conglomerações, apesar do frio daquela noite. Primeiro passamos por algumas pessoas de moto paradas dos dois lados de um trecho da estrada, depois tivemos a passagem praticamente fechada por dois carros e motos, e certo receio se abateu sobre nós.

O interior muito se parece com as cidades brasileiras. Alarmantes diferenças de classes sociais, mansões que se contrapõem a casebres. Dificuldade de acesso a saúde e educação. O consumo de drogas aumenta e a segurança diminui. Talvez a grande diferença seja a inclusão digital. Enquanto na cidade ficam fora os que não têm dinheiro para isso, no interior de Espumoso, todos ficam fora. Praticamente não há como acessar internet do interior. O Google não acha resposta para as perguntas que nascem naquela região.

Texto de Giordana Pezzini e Jéssica Fontana Favaretto

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