Um pedaço da infância de Charlie Brown em Peanuts Completo – Vol. I: 1950 a 1952

Um garoto, exemplar legítimo de um perdedor nato, e seu fiel e filosófico cão. Essa dupla nada dinâmica protagoniza uma das histórias em quadrinhos mais reproduzidas, lidas e vendidas de todos os tempos. A série de tiras cômicas Peanuts, criada pelo cartunista norte-americano Charles M. Schulz transformaria seus personagens em sinônimo de quadrinhos mundo afora. Afinal, quem é que não conhece Charlie Brown e seu inseparável companheiro Snoopy?
Peanuts Completo – Volume I: 1950 a 1952, publicado no Brasil pela editora L&PM (preço em torno de R$ 60,00) traz todas as tiras, diárias e dominicais, publicadas no período. Charlie Brown estreou no dia 2 de outubro de 1950, sendo que Snoopy deu as fuças dois dias após. As historietas publicadas nos jornais se encaixam na categoria cartum (ou cartoon), que consiste em um desenho humorístico sobre o cotidiano em um ou mais quadros. Charlie Brown e cia. renderia nada menos que 17.880 tiras publicadas.

O culpado pela enorme quantidade de desenhos publicados é Charles M. Schulz, um artista dos antigos que dispensava roteiristas e desenhistas. Ele fazia tudo sozinho. Tinha convicção de que os quadrinhos são uma bela arte, mas defendia o entretenimento acima de tudo. Schulz foi empilhando recorde de vendas e premiações uma atrás da outra, até falecer em 2010. Talvez não imaginasse que cerca de 10 anos depois da primeira tirinha, o bando de crianças ingênuas, cheias de problemas e indagações acerca do mundo dos adultos fossem se tornar um verdadeiro divisor de águas nos quadrinhos. À primeira vista, “Minduim” – como Peanuts é chamada no Brasil – é bastante infantil, mas existem várias camadas de leitura embaixo da suposta ingenuidade e simplicidade.
Meu amigo Charlie Brown
O mundo vivia com medo na década de 50. A guerra fria entre EUA e a antiga União Soviética tomava contornos cada vez mais acirrados. Nos gibis, dezenas de super-heróis invencíveis tentavam suprir em partes o medo da população. O american way of life começava a se impregnar na mentalidade das pessoas, consequência da transformação do país em superpotência. É no meio disto que surge “Peanuts”, indo na contramão de tudo que acontecia. O protagonista não tinha nenhum super poder, muito pelo contrário. Charlie Brown é uma simples criança, desesperançosa, depressiva e com níveis de insegurança alarmantes. Para Schulz, existem mais perdedores do que vencedores na vida, então nos identificamos mais com a derrota. “Enquanto um alegre vencedor é sem graça, existem centenas de perdedores, que usam historinhas alegres para se consolarem”, dizia o autor. Para René Gomes Rodrigues Jarcem, o sucesso, tão buscado e exaltado pelos norte-americanos, passava a milhas de distância do garoto do blusão amarelo.

O primeiro volume de Peanuts traz um traço mais leve e desenhos mais simples que ainda remetiam muito a outro cartum de Schulz, “Li’l Folks”, publicado entre 1948 e 1950 no Pionner Press sob o pseudônimo de “Sparky”. Muitos personagens famosos, como Woodstock, sequer existiam. O virtuoso Schroeder ainda era um bebê de colo, estava nos primeiros passos do seu fascínio por Ludwig Van Beethoven. Caso à parte, o protagonista Charlie Brown tinha um pouco de fama com as garotas – tanto que Lucy era sua namoradinha de infância –, depois é que a melancolia e o azar passaram a ser constante na sua vida. Snoopy já demonstrava alguma personalidade, mas ainda não falava e nem filosofava. Enquanto alguns personagens se tornavam cada vez mais populares, outros acabaram perdendo espaço com o tempo, como Patty.

Seguindo a mesma a lógica, o tempo foi passando e o humor do cartum acompanhou a evolução. Nos primeiros anos, porém, especificamente no período 50-52, o humor de Peanuts era mais leve, descontraído, ingênuo tal qual uma criança. Na tira onde Charlie conhece Schroeder, por exemplo, ele fica encabulado e diz não ficar à vontade perto de crianças. O diferencial de Schulz é ser engraçado tanto para uma criança com oito anos de idade quanto para um idoso de 80 anos. O desenho não perde a graça, apenas ganha outros sentidos com a vivência do leitor.
Hoje em dia, são raras as pessoas que ainda lêem as tiras de quadrinhos nos jornais diários. Parte significativa da cultura pop contemporânea é baseada nesta forma artística e Peanuts é um considerável pedaço disto. Schulz faleceu há mais de 10 anos, mas seu legado permanecerá eterno enquanto houver crianças e adultos no mundo.
