O lado sombrio da literatura

Analisando estados patológicos que levam ao suicídio e à loucura, Dostoiévski deixa seu nome na história como um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos

“Quanto mais gosto da humanidade em geral, menos aprecio as pessoas em particular, como indivíduos”. A frase é de ninguém mais ninguém menos que Fiódor Dostoiévski: um dos grandes nomes da literatura, conhecido por explorar o lado mais sombrio da mente humana em histórias como Os Irmãos Karamazov e Crime e Castigo. O autor sofreu em vida uma tortura similar à que retratava em seus livros, e, hoje, é conhecido no mundo como o último artista do sofrimento.

Nascido em Moscou, em 30 de outubro de 1921, o russo perdeu a mãe, aos 15 anos, vítima de tuberculose. Além disso, tinha uma complicada relação com o pai, que não era uma pessoa fácil de lidar. Justamente por essa personalidade, supõe-se que seu pai tenha sido assassinado a golpes e asfixiado por 15 súditos que se rebelaram contra a sua crueldade.

Dostoiévski pensava que todos os seres humanos eram uma espécie de mistério sem fundo e decidiu que a única forma de explorar intensamente o turbulento terreno da alma humana era como escritor. Em sua primeira novela, Pobres Gentes, em 1846, falou sobre as condições desumanas a que os camponeses eram submetidos – realidade sobre a qual gostava de escrever. Já para o segundo livro, buscou entender profundamente seus personagens. Aos 28 anos, o autor se interessava pelos movimentos políticos que apoiavam os camponeses e participou de reuniões secretas ilegais – uma vez por semana – nas quais se debatiam esses assuntos “proibidos”.

Atraído pelo socialismo, o escritor pregava valores com os quais se identificava, mesmo em uma época em que a Rússia era dominada por um czar que não permitia a liberdade de expressão. Em 23 de abril 1849, a polícia invadiu o apartamento de Dostoiévski, que foi preso junto com outros 20 companheiros socialistas. Posteriormente, todos foram levados a uma praça pública para serem executados. No entanto, quando os rifles já estavam apontados para Dostoiévski e prontos para serem disparados, um mensageiro chega à praça e avisa que a vida dos prisioneiros fora perdoada. Após essa experiência de quase morte, ele escreve uma carta a seu irmão, dizendo que, ao olhar para o passado, via quanto tempo havia desperdiçado. Não restava dúvida: Dostoiévski havia passado por uma profunda mudança.

Como punição, o czar sentenciou o escritor a 4 anos de trabalhos forçados na Sibéria. Chegando lá, ele sente que está na fronteira de uma nova vida: não sabia o que o esperava, mas sabia que nada seria igual. Na Sibéria, passou a conviver com criminosos de verdade e dividiu o dormitório com outros 50 presos. Dostoiévski se viu, novamente, empurrado aos mistérios tenebrosos da alma humana, tentando compreender a vida interior dos assassinos e ladrões com os quais convivia. De frente à mescla do bem e do mal, ele começou a observar os conceitos de culpa, pecado, crime e redenção.

Para o escritor, a perfeição divina, similar à de Cristo, era a chave para a salvação espiritual e o sofrimento – passo imprescindível para transcender a dificuldade – era muito importante para a redenção. Arriscando-se a ser castigado, o autor começou a escrever um diário no qual descrevia suas novas crenças. Segundo a especialista Nancy Ruttenburg, da Universidade de Nova Iorque, essa experiência na Sibéria permitiu que ele chegasse a uma dimensão totalmente diferente.

Em 1859, após ter se casado com Maria Dmitriévna Issáieva, Dostoiévski regressa a São Petersburgo: sem dinheiro e com uma mulher. Nos últimos anos, ele havia sofrido graves ataques, que o deixam vários dias incapacitado. Sua epilepsia piorou a tal ponto que ele decidiu deixar a Rússia em direção à Europa, onde encontrou ainda mais miséria. Nos três anos seguintes, percorreu as capitais europeias tentando reorganizar sua carreira, enquanto os ataques epiléticos se tornavam mais frequentes, e ele mais endividado.

Mesmo com sua mulher doente de tuberculose em São Petersburgo, o russo cai vítima dos seus próprios desejos. Em uma sessão pública de leitura, conheceu uma mulher que o atormentaria como nenhuma outra: a jovem Polina Suslova. Para impressioná-la, ele recorreu aos cassinos alemães para ganhar dinheiro fácil. Conforme sua fortuna aumentava ou diminuía ao girar da roleta, os jogos se tornaram seu vício. O especialista Vladimir Alexandrov, da Universidade de Yale, define que o escritor se encantava por mulheres do tipo “infernais”: uma forma com existência demoníaca; uma mulher atrativa, mas perturbada.

Desiludido, Dostoiévski retornou à Rússia e à sua complicada vida particular em 1864, e encontrou sua mulher no último estágio da tuberculose, moribunda, na cama. Enquanto acompanhava a dor de Maria, escreveu Notas do Subsolo. Um mês após finalizar o livro, sua esposa morreu, reforçando a ideia de que tudo que o autor escreveu surgiu do caos da sua vida.

Em busca das intensas verdades humanas, Dostoiévski rompeu os moldes da novela tradicional. Em abril de 1854, ao terminar Notas do Subsolo – uma espécie de retrato da vida de São Petersburgo -, ele explorou a brutal realidade das volúveis cidades russas. A obscura ambição de Dostoiévski em ressaltar os perigos que afetam as cidades modernas ganhou seguidores: diretores, como Stanley Kubrick, em Laranja mecânica, reforçaram a proposta. Na opinião de Eliot Borenstein, da Universidade de Nova Iorque, Dostoiévski foi um dos primeiros autores a abordar verdadeiramente o que significa ser uma pessoa no mundo moderno. Apesar de sua visão ambicionaria sobre o coração da cidade, Notas do Subsolo recebeu inúmeras críticas.

O fracasso e a falta de dinheiro sempre rodearam a vida do escritor. No entanto, várias de suas publicações obtiveram sucesso. Crime e Castigo – clássico retrato de um assassino –, apesar de ter sido escrito há mais de 150 anos, continua sendo bem vendido até hoje. A história está carregada com a própria carga emocional da vida de Dostoiévski, que, naquela época, havia perdido sua mulher e seu irmão. Em meio àquele caos, ele buscou refúgio nos cassinos europeus, estimulado pela ideia de dinheiro fácil. Contudo, acabou perdendo muito dinheiro na roleta e, desesperado, sua única saída foi vender mais uma história a seu editor. Ele trabalhou contra o relógio escrevendo essa história desconcertante sobre assassinato, culpa e salvação. Na obra, o leitor é obrigado a explorar a mente de um assassino que está em conflito com sua consciência.

Com o primeiro dinheiro que recebeu pelo livro, pagou as faturas do hotel e comprou uma passagem de volta a São Petersburgo. Quando escreveu Crime e Castigo, Dostoiévski vivia em uma situação de extrema pobreza, o que acabou agravando seus ataques de epilepsia. Nesse contexto, conheceu uma mulher que estava prestes a trazer paz para seu mundo: Ana Snítkina.

 Mesmo com o sucesso da última obra, em 1866, ele não estava satisfeito. Queria mais. Com o prazo de apenas um mês para terminar uma nova novela e entregá-la a seu editor – correndo o risco de perder o direito sobre suas outras obras publicadas -, Dostoiévski contratou uma taquígrafa. Ana, uma jovem de 20 anos, lhe fez ver que, finalmente, havia encontrado a mulher adequada, diferente do estereótipo pelo qual sempre havia se apaixonado. Com ajuda dela, ele terminou a tempo a novela O jogador. Em fevereiro de 1967, logo após lançar a obra, eles se casaram.

Apesar da tranquilidade que Ana trouxe ao assumir as finanças do casal e de editar as obras do escritor, Dostoiévski estava mais decidido que nunca a explorar a natureza humana. Em novelas como O idiota, mergulhou na vida marginal dos incapacitados. O autor nunca desistiu de fazer com que os leitores explorassem a alma humana, mesmo recebendo críticas por seus trabalhos. Esse desejo o levou de volta à ficção, depois da publicação de Diário de um escritor, em que retratava acontecimentos de sua vida. Aos 60 anos, o escritor sentiu que ainda falta alguma coisa. Nessa época, a Rússia estava no início da Revolução. Vendo as grandes dificuldades que assolavam seu país, Dostoiévski começou a escrever Os Irmãos Karamazov, em 1878. Sabendo que lhe restava pouco tempo de vida, ele suspeitava que aquela poderia ser sua última obra.

Dostoiévski, finalmente, havia alcançado o reconhecimento como grande escritor. Dois meses após publicar Os Irmãos Karamazov, ele começa a sofrer com hemorragias internas e, em 28 janeiro de 1881, seu estado de saúde piora. Ele diz à sua esposa que morreria naquele dia e pede que Ana leia trechos da Bíblia. Dostoiévski tem uma nova hemorragia, fica inconsciente e morre pouco antes da meia-noite.

Sua morte fez muita gente sentir que havia perdido o seu profeta. Dostoiévski levou os leitores a se identificarem com um novo tipo de personagem: o anti-heroi. O autor descobriu como alguém pode entrar em guerra consigo mesmo, descrevendo os conflitos psicológicos e a perturbação da mente humana como jamais havia sido feito. Precursor do movimento filosófico conhecido como existencialismo, Fiódor Dostoiévski arrancou elogios de nomes como Freud e Nietzsche e transcendeu as décadas para provar que é impossível dissociar a literatura de seu legado.

Biografia produzida a partir do documentário sobre Fiódor Dostoiévski.

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