“Tentarei ser os seus olhos, Jorge. Sigo o conselho que você me deu, quando nos despedimos: “Escribe, y recordarás”. Tentarei recordar, com exatidão desta vez. Para que você possa enxergar o que eu vi, desvendar o mistério e chegar à verdade. Sempre escrevemos para recordar a verdade. Quando inventamos, é para recordá-la mais exatamente.”
Assim começa a obra Borges e os orangotangos eternos de Luis Fernando Verissimo. O escritor é filho do Rio Grande do Sul, nascido em Porto Alegre em 26 de setembro de 1936. É muito conhecido por publicar crônicas de humor em diversos jornais do país, é cartunista e músico, autor de teatro e roteirista, e um romancista de mão cheia. Tem mais de sessenta títulos publicados e é filho de um dos maiores escritores que o estado já teve Erico Verissimo. E sem mais delongas vamos ao ponto. Lembrando que hoje é o seu aniversário, escolhemos uma de suas obras para homenageá-lo.
Borges e os orangotango eternos trata de um trabalho de ficção policial que une nomes consagrados da literatura como Jorge Luis Borges e Edgar Allan Poe. Volgelstein, o protagonista, descobre que haverá um encontro de especialistas na obra de Edgar Allan Poe bem próximo de onde mora, aliás, a primeira vez que o encontro se realizou fora do hemisfério norte. Claro! Não haveria outra oportunidade para Volgelstein ver o encontro e se foi rumo a Buenos Aires para o Congresso Israfel Society de 1985.
[stextbox id=”custom” caption=”O livro” float=”true” align=”right” width=”250″]Borges e os orangotangos eternos foi publicado em 2000 e foi vencedor do prêmio Jabuti Popular na categoria ficção.
[/stextbox]Volgelstein é um homem solitário, de meia idade e resideem Porto Alegre. Jána capital da Argentina para o evento, acontece um crime e ele se vê envolvido nas investigações. O protagonista, juntamente com o escritor/personagem Jorge Luis Borges, tentará desvendar os mistérios que envolvem o crime. Volgelstein e Borges usufruem do conhecimento da literatura policial dos contos de Edgar Allan Poe para resolver o acontecido, sendo que o criminoso deixa algumas pistas baseadas nas histórias de Poe. Em cada pista acrescenta outro enigma que faz iniciar uma nova discussão literária.
O Congresso reunia, nas palavras de Volgelstein,“três dinossauros velhos que seria um prazer ver um comer a cabeça do outro nos debates”, Joachim Rotkopf, Xavier Urquiza e Oliver Johnson. Além destes, Jorge Luis Borges também fazia parte da trupe, mas este era uma espécie de guru do nosso protagonista, que o admirava tanto a ponto de mudar todo um conto de Borges em uma tradução. “Para dar uma arrumadinha”, segundo ele.
A narrativa é envolvente e empolgante, faz com que o leitor se entregue ainda mais a cada parágrafo. Mas em contra ponto a isso temos um narrador trapaceiro, que deixa dúvidas no leitor, levando-o criar expectativas e também possíveis acontecimentos, realizando assim uma interatividade com o trama, como se fosse um co-narrador. A exemplo disso temos na literatura nacional a personagem Capitu, a jovem conhecida como “morena dos olhos de ressaca”, nos leva a fazer parte da obra a escrever em nossa mente juntamente com o escritor. Machado de Assis foi feliz na criação do enredo de Dom Casmurro, e mais feliz ainda no emprego dessa narrativa que deixa dúvidas, muitas dúvidas sobre a fidelidade de Capitu. E é assim que Luis Fernando Verissimo desenrola essa narrativa policial, baseado nas obras policiais de Poe, este que já foi traduzido por Machado. Quem sabe haja alguma ligação no emprego desse narrador espertalhão.
Com teorias de Poe e contos de Borges, o leitor conhece um pouco mais de cada um em apenas uma leitura, Borges e os orangotangos eternos foi um achado para os amantes da literatura de ficção policial. Se o leitor ainda não apreciou as obras do escritor norte-americano ou do argentino, vai durante a leitura buscar outras obras para tentar, juntamente com Volgelstein, desvendar os mistérios da Israfel Society de 1985.
O final dessa trama? Não sei. Acabei esquecendo quando cheguei aqui. Mas, se ficou curioso para descobrir os mistérios, corra até a biblioteca mais próxima. Mas lembre-se: vá munido de mantimentos, pois sua estadia por lá será longa.

