“Será que chove hoje?”
Estas quatro palavras formam um dos questionamentos mais antigos da humanidade. No período neolítico, quando o homem ainda era homo sapiens sapiens, a humanidade já olhava para a imensidão do céu pensando no próximo dia. Foi nesta era que a agricultura teve seus primeiros passos. Deste então, há 150 mil anos, a interferência do homem no meio ambiente gerou inúmeras consequências ao planeta. Estatísticas recolhidas pela Organização Meteorológica Mundial (WMO) mostram que, no ano de 2010, a temperatura ficou 0,53º C acima da média registrada nos últimos 30 anos. Também foram apontados aumentos entre 1,2ºC e 1,4ºC acima da média no mesmo período especificamente nas regiões da África e da Ásia. O painel intergovernamental sobre mudanças climáticas, estabelecido em 2007, mostrou que a região sul do Brasil registrou aumentos de até 40% na quantidade de chuvas no último século. Ter as quatro estações do ano em um único dia se tornou algo corriqueiro.

As primeiras consequências dessa variação climática são sentidas na própria pele – basta colocar o pé fora de casa. Sair de ambientes climatizados para um meio externo ocasiona um choque de temperatura no corpo. Vivenciar as quatro estações do ano em apenas um dia tornou-se algo rotineiro. Mesmo numa manhã de bastante calor, a maioria da população sai de casa com um agasalho em baixo do braço, caso mais tarde o tempo esfrie. A preocupação tem razão de existir. “Este contato com várias temperaturas ao longo do dia acaba prejudicando a saúde”, afirma a pneumologista Anelise Lorenzone Weissheimer, que atende em Passo Fundo. A médica explica que o corpo utiliza muita energia, especificamente líquidos e vitamina C, durante a adaptação às temperaturas baixas, deixando-o mais suscetível à entrada de bactérias e vírus, como a gripe. “O idoso e a criança, as duas extremidades da vida, estão mais suscetíveis a se contaminarem por que geralmente ambos estão desidratados. O idoso esquece de ingerir líquidos, assim como a criança. Cerca de 80% do corpo infantil é líquido” explicou.
Mas por que o clima anda de cabeça para baixo? Para a World Wildlife Fundation (WWF), o principal responsável pelas mudanças climáticas é o aquecimento global, consequência do excesso de gases de efeito estufa na atmosfera, especialmente o dióxido de carbono.
Existem várias maneiras de tais gases serem lançados na atmosfera – a queima de combustíveis fósseis, como petróleo, é uma das mais lembradas. No Brasil, a emissão de gás carbônico subiu 62%, atingindo 2,35 bilhões de toneladas emitidas entre 1990 e 2005, conforme levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2010. Mas aqui, ao contrário das estatísticas dominantes mundialmente, o desmatamento é o principal agente responsável pela emissão de gases de efeito estufa.
Weissheimer também alerta que, para evitar uma gripe ou outra doença em tempos de variações de temperatura extremas, é importante manter uma boa alimentação, ingerir muito líquido, consumir alimentos ricos em vitamina C, produtos que contenham lactobacilos e ficar de olho na previsão do tempo.
Ciência do clima
Para não ser pego de surpresa pelas mudanças climáticas, acompanhar as previsões meteorológicas é uma atividade quase obrigatória. O pesquisador e meteorologista da Embrapa Trigo, Gilberto Cunha, explica que o campo de aplicação da meteorologia vai muito além de saber se o dia terá sol ou chuva. “Existe a informação utilizada de forma estratégica, como a tomada de uma decisão na agricultura, decisões na área de defesa civil e da navegação aérea (que é o maior usuário da meteorologia). Também há a tomada de decisões na área de defesa civil, desde a evacuação de algumas cidades sujeitas a alagamento até a ocorrência de um furacão ou tornado” explicou.

A meteorologia brasileira é eficiente, mas precisa melhorar a estrutura. “O Brasil tem uma das melhores meteorologias praticadas no mundo, mas nosso serviço meteorológico operacional ainda carece de investimentos, principalmente uma maior cobertura do território nacional por radares meteorológicos” disse Cunha. Falta apoio e investimentos públicos na área, mas, para amenizar tragédias como a das chuvas no Rio de Janeiro no começo deste ano, a conscientização para prevenção é essencial. Segundo o meteorologista, a mudança precisa ser comportamental. “Precisamos construir um processo de educação da população de como conviver com esse risco. Em países que são mais tragicamente afetados por desastres, existe uma cultura maior de alertas meteorológicos, de obediência e controle”.
Hoje, com o aumento da população humana no mundo (que beira sete bilhões de pessoas), áreas de risco passaram a ser ocupadas de forma mais intensa, fazendo uma questão mais complexa, que engloba problemas sociais. Geralmente ocorre é a ocupação irresponsável em encostas e áreas sujeitas a alagamento, muitas vezes sem opção de escolha pelo individuo, consequência de sua vulnerabilidade econômica. Em outras palavras, por causa da sua pobreza.
Clique aqui e acesse Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climático para conferir qual é a previsão do clima na sua região
Menos citado, mas também relevante no contexto é a importância econômica do clima. Tanto o frio como o calor podem definir um roteiro do final de semana e ao mesmo tempo pode estabelecer o turismo como a principal atividade econômica de uma cidade ou região. “A perspectiva de neve em Gramado ou em Canela, por exemplo, é uma informação importante que leva muitas pessoas a tomarem uma decisão de viajar para conhecer o local” explicou o pesquisador da Embrapa. Localidades eminentemente turísticas, como a serra gaúcha e Campos do Jordão em SP, são exemplos de regiões que exploram a informação climática em termos do turismo econômico.
Na estrada
Se o clima influencia na decisão de saída de uma viagem, também pode interferir na chegada. O chefe do núcleo de operações da 8ª delegacia da Polícia Rodoviária Federal de Passo Fundo, Carlos Volnei Bonaldi Borges, recomenda prudência ao viajar de carro: “Ao pegar a estrada em um final de semana, período em que o fluxo aumenta muitas vezes, o motorista precisa diminuir extremamente a velocidade e redobrar os cuidados nesses sentidos”.

Para ilustrar como as intempéries do clima podem atrapalhar nas estradas, o balanço feito pela Polícia Rodoviária Federal, publicado no G1, contabilizou 166 pessoas mortas nas estradas durante o carnaval de 2011, um aumento de 16% no mesmo período em 2010. Além da imprudência dos motoristas, as chuvas foram um fator decisivo nos acidentes. “Tivemos chuvas praticamente o carnaval inteiro. Há situações nas estradas que o motorista consegue contornar, mas, quando está chovendo, isso fica impossível.”, falou Aristíades Júnior, da PRF, ao G1.
Bolnaldi Borges explica como a chuva pode causar um acidente. “Além de atrapalhar a visibilidade, a chuva molha a pista, formando algumas poças que podem ocasionar a chamada aquaplanagem, onde o veículo fica sem controle e aderência na pista” comentou. O policial ainda ressaltou a questão da visibilidade sob chuva, que prejudica ultrapassagens, atravessamentos de pistas e convergências. Por isso, o motorista precisa manter os pára-brisas e os vidros laterais sempre limpos.
Clima bom ou ruim?
A perspectiva para o futuro não é das melhores. Projeções do IPCC (painel intergovernamental sobre mudanças climáticas) apontam para aumentos de até 2,5% nas temperaturas médias nos próximos 8 anos. No fim do século atual a situação ficaria ainda pior, com médias que ficariam até 7% acima da média, modificando não somente a rotina dos humanos, como também toda a fauna e flora de forma radical – afinal, quem sobreviveria a temperaturas de aproximadamente 50º C?
O estudo realizado pelo Fundo Ecológico Universal, organização não governamental com sede na Argentina, mostra que o aquecimento global irá interferir na produção de alimentos. A produção mundial de trigo, por exemplo, sofrerá um déficit de 14% até 2020.
Mas o calor extremo tem seu contraponto nas épocas de frio. No caso específico do Brasil, Wheissheimer lembra o fato do país não estar preparado para temperaturas muito baixas: “Nosso meio não é adaptado à climatizadores internos, que são comuns no exterior visto que lá há muita neve e o inverno é prolongado. O Brasil, por ser um país tropical, tem pouco frio, mas também tem épocas estranhíssimas de frio extremo como na região sul” completou.
O planeta sofre com a ação do homem desde o início da industrialização, período que modificou o meio ambiente de maneira intensa. O crescimento industrial e o descaso com a natureza trouxeram consequências irreparáveis. Seja por frio, calor, sol ou chuva, a rotina diária é afetada pelo clima. Apesar da evolução da meteorologia, não existe certeza absoluta do que virá do céu e dos mares. Mas como vivemos em tempos de tormentas, pegue um casaco antes de sair de casa, só por via das dúvidas.

Existem várias maneiras de tais gases serem lançados na atmosfera – a queima de combustíveis fósseis, como petróleo, é uma das mais lembradas. No Brasil, a emissão de gás carbônico subiu 62%, atingindo 2,35 bilhões de toneladas emitidas entre 1990 e 2005, conforme levantamento do
O estudo realizado pelo Fundo Ecológico Universal, organização não governamental com sede na Argentina, mostra que o aquecimento global irá interferir na produção de alimentos. A produção mundial de trigo, por exemplo, sofrerá um déficit de 14% até 2020.