Para provar que “a música não tem idade”, no dia em que comemoraria o aniversário de 65 anos, Freddie Mercury é lembrado e homenageado por uma trajetória marcada por mudanças, liberdade e um estrondoso sucesso que transcendeu as fronteiras do tempo e do espaço
Por: Daniele Freitas e Marcus Freitas
Quinta-feira, 5 de setembro de 1946, Hospital Governamental de Zanzibar. Farrokh Bulsara nasceu em um paraíso tropical na margem leste-africana, em um arquipélago formado por duas ilhas ao largo da costa da Tanzânia. Nesse cantinho do mundo de existência ignorada para a maioria das pessoas, surgia uma voz que seria lembrada em todos os cantos do mundo, por consecutivas gerações.
Desde pequeno, Farrokh já atraía a atenção pública: quando bebê, ele venceu um concurso local de fotografia. Entre as atividades preferidas da infância, estava observar os navios que passavam pelo porto da Cidade de Pedra e sonhar com a música – esta última, a atividade que o acompanharia até o fim de sua vida. O gosto eclético abrangia as músicas indiana, popular e inglesa. A mãe de Farrokh, Jer Bulsara, em depoimento ao documentário The Untold History, contou que, quando iam a reuniões sociais e a festas, ele cantava sempre que alguém lhe pedia. “Ele sentia-se orgulhoso por fazer as pessoas felizes”, completa.
[stextbox id=”grey”]“Se tenho alguma imagem de mim, é a de um homem de extremos. Acho que o caráter é feito de um monte de ingredientes. Acho que tenho um lado muito suave e um lado muito duro”.[/stextbox]
Naquele pequeno arquipélago, a família Bulsara vivia isolada do mundo ocidental. Mesmo com meses de atraso, as revistas recebidas eram a única forma de conhecer um pouco mais sobre a música e a cultura do ocidente. E assim foi. Com oito anos, Farrokh embarcou sozinho em uma viagem rumo a Bombain, na Índia. Em 1955, ele entrou – como interno – para a escola de St. Peter, em Panchgani, e foi onde passou a ser chamado de Freddie. Segundo o atual diretor da escola, Freddie era bom em desporto, música e arte.
Além do bom desempenho nas disciplinas artísticas, Freddie foi ator em diversas peças de teatro da escola, atuando com mais frequência em papéis femininos. Ele começou a cantar nas festas da escola e a tocar piano nos Hectics – banda formada com outros quatro colegas. Um acontecimento interessante lembrado pelo diretor foi que, antes de sair do colégio interno, aos 14 anos, ele rabiscou no livro de um colega a seguinte frase: “Os quadros modernos são como as mulheres, não podemos desfrutar delas se tentarmos entendê-las”.
[stextbox id=”grey”]“Não posso passar o dia na cama, sem fazer nada. Acho que é um desperdício de tempo. Quase não leio livros. Acho que é um desperdício de tempo. Vão matar-me por dizer isso”.[/stextbox]
Em janeiro de 1964, Freddie já estava morando em Zamzibar há dois anos, quando uma sangrenta revolução se instalou na cidade. Por segurança, os Bulsara decidiram ir para a Inglaterra, instalando-se em Feltham. As diferenças culturais foram imediatamente sentidas, mas, segundo a própria família do cantor, ele sempre adorou a ideia de morar na Inglaterra e dizia, inclusive, que “realizaria alguma coisa ali”. Foi em terras britânicas que o pequeno Bulsara teve seu primeiro emprego, empilhando caixotes em um complexo industrial. Mal sabia ele que os anos seguintes lhe reservavam um empilhamento de grandes sucessos que ficariam registrados na história da música.
[stextbox id=”grey”]“A felicidade é a coisa mais importante. Se estou feliz, isso vê-se no meu trabalho. Basicamente, eu só quero ser feliz, ganhar muito dinheiro e comprar muitas coisas”.[/stextbox]
Na Inglaterra, Freddie não pôde entrar na escola de arte por não ter habilidades literárias. No entanto, no outono de 1964, ele se inscreveu na Escola Politécnica de Isleworth e foi aprovado com nota máximo no curso. Dois anos depois, em 66, entrou para a Escola de Arte em Ealing, onde estudou design gráfico – época em que começou a se tornar parte do mundo boêmio musical de Londres nos anos 60. No tempo em que esteve lá, Freddie produziu retratos, pinturas de pop art, esboços de moda e desenhos – utilizando como modelos os ídolos do cinema e da música pop. Na metade do curso, ele mudou para a moda e produziu uma série de roupas para passagens de modelos.
[stextbox id=”grey”]“Na época da faculdade me interessava muito por música”.[/stextbox]
Pouco tempo depois, a afirmação foi reforçada. A hipótese de entrar numa banda surgiu em 1968, com a chegada a Londres do trio de blues de Liverpool, os Ibex. Eles conhecerem os Smile – banda britânica de rock que durou dezoito meses, durante o final da década de 1960, sendo precursora da banda Queen e composta por Brian May (posteriormente guitarrista do Queen), Roger Taylor (posteriormente baterista do Queen) e Tim Staffell, vocalista e baixista e que, posteriormente, após sua saída, foi substituído por Freddie Mercury – e precisavam de um cantor.
O documentário The Untold History também conta a origem do sobrenome Mercury. Segundo o guitarrista Brian May, ao compor a música “My Fairy King”, Freddie chamou atenção para um verso dizia “Ó mãe Mercury, o que me fizeste?”. A partir disso, decidiu mudar seu nome para Mercury. “A mãe dessa canção é minha mãe e passarei a me chamar Mercury”, afirmou.
[stextbox id=”grey”]“Gosto que o mundo ouça a minha música e quero que toda a gente venha me ouvir e olhar para mim quando toco”[/stextbox]
No que diz respeito a sua vida pessoal, Freddie Mercury morou com Mary Austin por seis anos. Nas palavras da própria Mary, os dois últimos anos em que viveram juntos foram conturbados. “Eu percebi porque a relação tinha mudado. Não sabia com quem ele estava, nem com quem ele andava, mas fazia ideia. Sabia que ele não estava bem com ele próprio por causa de alguma coisa, via que ele se sentia mal por causa de alguma coisa. Não se sentia à vontade, evitava situações e o Freddie não era assim”, explica. Após uma conversa séria, eles terminaram o relacionamento. “Foi um alívio, sinceramente, ouvir da boca dele. Agradou-me o fato de ele ter conseguido ser franco e honesto comigo. Acho que ele nunca pensou que eu apoiaria o fato de ele se tornar homossexual, mas eu apoiei, porque era uma parte dele”. Segundo os amigos próximos, Mary sempre foi o amor da vida de Freddie.
A partir de então, Freddie ficou conhecido por promover muitas das festas mais extravagantes da história do rock, como a festa de seu 39º aniversário. A sexualidade nada convencional foi constituída, também, em meio ao contexto de atitudes liberais dos anos 60 e 70. O fotógrafo Mick Rock diz que “o lado bissexual, o ser andrógeno, rapaz/moça, ele/ela, a ambiguidade, era o espírito da época”. Para ele, Freddie estava no centro disso tudo, envolvido espiritual, emocional e sexualmente, sendo, claramente, um homem de sua época.
Outra passagem marcante de sua vida foi a canção “Barcelona” em um dueto com Montserrat Caballé. Em maio de 1983, o interesse pela ópera fez Freddie ir ao Covent Garden assistir a Pavarotti, mas foi a soprana espanhola que chamou a atenção do astro. Do posterior encontro, surgiu a memorável apresentação de Freddie, Montserrat e Mike Moran no Covent Garden. “Os músicos se entendem muito bem. Estão casados com a música. Era isso que acontecia com o Freddie e comigo”, completa Montserrat. A primeira atuação pública de “Barcelona” foi em Ibiza, em 1987, considerada uma grande revolução para a ópera.
No final dos anos 80, Freddie deixou a Inglaterra para um período de exílio e tranquilidade. O destino escolhido foi Nova Iorque, mas ele também viajou para lugares como o Rio de Janeiro. Foi nessa época que Freddie Mercury lançou Mr. Bad Guy – seu primeiro álbum solo que, apesar de adorado pelos fãs, foi um fracasso comercial. Segundo amigos do cantor, foi no período em que esteve em Nova Iorque que Freddie contraiu a doença que acabou levando-o à morte anos depois.
[stextbox id=”grey”]“Gostaria de sentir que apenas estou sendo honesto comigo mesmo. No que me diz respeito, quero acumular vida e diversão, quero divertir-me tanto quanto seja possível nos anos que me restam”.[/stextbox]
O diagnóstico deu início a um período muito difícil. Em 1991, já circulavam os rumores de que Freddie Mercury estava com AIDS. No entanto, a confirmação só veio em uma declaração feita pelo próprio cantor no dia 23 de novembro – um dia antes de sua morte. Freddie faleceu na noite de 24 de novembro de 1991, na sua própria casa, conhecida como Garden Lodge. A tristeza causada pela repercussão de sua morte foi sentida em todo o mundo. O corpo foi cremado e suas cinzas espalhadas na margem do Lago Genebra, na Suíça. Como não existe um túmulo, até hoje os fãs de Mercury, deixam buquês de flores em frente à sua casa – passada por testamento à ex-namorada, Mary Austin.
Em novembro de 1992, Freddie Mercury foi homenageado com uma estátua, inaugurada em Montreux, na Suíça, com a presença de Brian May, Roger Taylor, da cantora Montserrat Caballé, Jer, Bomi e Kashmira Bulsara – mãe, pai e irmã, respectivamente. A associação de caridade The Mercury Phoenix Trust foi fundada pelos membros remanescentes do Queen, que também organizaram em abril de 92 um concerto beneficente – The Freddie Mercury Tribute Concert –, no Wembley Stadium, em homenagem à vida e ao trabalho do cantor. Além disso, nos jogos olímpicos de Barcelona, que aconteceram um ano após a morte de Freddie, Montserrat Caballé interpretou a canção “Barcelona”, em um dueto virtual com o falecido cantor. Mesmo nos dias atuais, o famoso dueto é reconhecido como um marco na história da música.
[stextbox id=”grey”]“Não me arrependo das coisas que fiz. Sou eu mesmo!”[/stextbox]
No playlist abaixo, você pode assistir aos vídeos que compõem o documentário The Untold History:
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Queen
O mundo seria bem diferente se Freddie Mercury estivesse vivo. O legado do Queen seria ainda maior, e seu brilho ofuscaria qualquer outra banda existente. Há mais de 30 anos, e mesmo depois da morte do seu vocalista, os números e recordes alcançados pela banda permanecem como referência nas listas e vendas de álbuns ao redor do mundo. Além de Mercury, o Queen é formado por Roger Taylor na bateria, John Deacon no baixo e pelo mestre da guitarra Brian May – e sua inseparável Red Special. Mas ninguém impedia o outro de se aventurar em outros instrumentos, tanto que Taylor e May aparecem nos vocais em inúmeras músicas.
O primeiro passo do Queen foi dado no começo dos anos 70, sendo John Deacon o último a integrar o grupo. Taylor e May foram os primeiros a formarem a banda, sendo acompanhados por Freddie Mercury logo depois. Em 1973 é lançado Queen, disco que puxa para um som mais pesado, flertando com o heavy metal em alguns momentos. Se tratando de gêneros dentro do rock, os dois primeiros álbuns destacam-se pela ópera, abusando da potência vocal de Freddie Mercury. Ainda nessa década, dois álbuns extremamente significativos na discografia foram produzidos, um após o outro: A Night at the Opera (1975) e A Day at the Races (1976). No primeiro está “Bohemian Rhapsody”, a música que colocou o Queen no mesmo panteão de Stones, Beatles, Led Zeppelin e outros deuses do rock.
Dono de uma voz irreproduzível, Mercury gostava de fazer duetos. Em 1982 o álbum Hot Space teve a presença de um participante especial. David Bowie, também conhecido como “o camaleão do rock”, embalava o ritmo dançante na faixa “Under Pressure”. Anos mais tarde, em 87, seria a vez de dividir um álbum inteiro com a cantora de ópera Montserrat Caballé, sendo “Barcelona” a música chefe. A canção seria interpretada por ambos na abertura dos jogos olímpicos de 92, ocorridos na cidade catalã, mas a fatalidade em 1991 impediu a realização da apresentação.
O concerto de tributo a Freddie aconteceu um ano depois do seu falecimento, em 1992 em um estádio Wembley abarrotado de pessoas. Uma verdadeira constelação subiu ao palco para acompanhar May, Deacon e Taylor nas músicas do Queen. Entre os nomes estão Roger Daltrey, George Michael, Annie Lennox, David Bowie, James Hetfield, Seal, Paul Young, Elton John, Axl Rose, Zucchero, Slash e Robert Plant.
Nos dias atuais, o baixista John Deacon está aposentado. Brian May e Roger Taylor uniram-se a Paul Rodgers, formando o Queen+Paul Rodgers realizando alguns shows e até o lançamento de dois álbuns, Return of the Champions e The Cosmos Rocks. Não há pretensão de substituir Freddie Mercury, até porque não há notícia de uma voz no mesmo nível. Já que rei nunca perde a majestade, o Queen reinará até o final dos tempos.
TOP 5 ÁLBUNS – QUEEN

O Nexjor incorpora Nick Hornby e seleciona cinco álbuns obrigatórios da vossa majestade Queen. Foi complicado escolher apenas cinco, muita coisa boa ficou de fora, mas de qualquer forma os eleitos foram:
Queen II – O rock ópera é protagonista no segundo trabalho em estúdio. As letras remetem a tempos medievais, batalhas épicas, ogros, fadas e outros elementos do mundo fantástico. O primeiro grande hit do grupo, “Seven Seas of Rhye”, ganhou uma versão estendida. “Father to Son”, “Ogre Battle”, “The March of the Black Queen” e a hipnotizante “Nevermore” – apenas o piano e vocal de Mercury – completam a obra com maestria.
Live at Wembley ’86 – A performance ao vivo mais marcante. Entre uma canção e outra, Freddie brincava e interagia com o público. Junto com o primeiro Rock In Rio, o show em Wembley foi recorde de público, aproximadamente 140 mil pessoas assistiram. A maioria dos clássicos, como “Bohemian Rhapsody”, “Tie Your Mother Down”, “Hammer to Fall” e “Radio Gaga”, estão presentes no setlist.
The Game – Emplacar vários hits em um único álbum não é para qualquer um, mas para o Queen e Freddie Mercury isso era mera rotina. The Game é balanceado e já mostra os rumos que o som do Queen seguiria na década de 80. “Another one bites the dust”, “Save me”, “Crazy little thing called love” e “Play the game”, quatro faixas presentes no primeiro Greatest Hits, são frutos deste álbum.
Made in Heaven – O título já mostra que o álbum póstumo lançado em 1995, quatro anos após a morte de Mercury, é uma homenagem ao vocalista. Os demais integrantes trabalharam em cima de músicas, ou melhor, usaram vocais previamente gravados por Freddie para finalizar as canções. Além da faixa homônima, baladas como “Let me live”, “Too much love will kill you” e “I was born to love you”
A Night at the Opera – Tem “Love of My Life”, “’39”, “You’re my best friend”, mas é o disco da legendária “Bohemian Rhapsody”, eleita em inúmeras enquetes, revistas, sites e concursos como a melhor música de todos os tempos. Precisa dizer mais?
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[stextbox id=”custom” caption=”Live at Wembley no YouTube”]Em virtude das comemorações do 65º aniversário de Freddie Mercury, o canal oficial do Queen no YouTube disponibilizou o show de Wembley em 86 na íntegra. A má notícia é que o vídeo estará online apenas por dois dias, conforme publicado na Rolling Stone. Se você já viu, vale a pena relembrar os grandes momentos de Mercury e cia. Caso você ainda não tenha visto, está esperando o que para dar play?[/stextbox]
httpv://www.youtube.com/watch?v=vPUqQrMEs2Y
