
Quando abri os olhos, estava ao meu lado, ligada. O sol me dava bom dia com um olhar de soslaio pela veneziana e, no armário em minha frente, refletia-se no espelho. Lentamente, estico o meu braço, coloco em meu rosto e aperto o botão. A imagem é a mesma que vejo. Perfeita. O horário de 30 minutos que está por vir me espera e eu me apresso. Desligo-a e deixo na cama enquanto meus olhos me levam para as ações matinais cotidianas. Fixada no horário, pego ligeiramente e coloco-a no pescoço, sua cama está à tira-colo. Então, ao sair do meu prédio, penso na pauta: O presidente da república chega à capital do estado. Meu foco o presidente (meu primeiro foco) estou de olho nisso, de mente nisso. Lembro do ambiente da praça, os melhores pontos, está nublado, quantos fotógrafos poderão estar lá com o mesmo objetivo – evento importante, a foto é capa. O itinerário do ônibus me presenteia com o contorno da praça e a multidão à minha frente. Empurra-empurra, acenos do povo, políticos sorridentes, crianças no colo, beijo no rosto, mães orgulhosas, flashes, flashes, flashes… assessores em polvorosa pisam no meu pé, – desculpa! Coloco-a no rosto. Os dois olhos abertos. o esquerdo não se fecha, olha tudo, tem vida própria. É o diário vendo os quadrados que faço. O editor na minha mente que quer o presidente, o jornalista que quer a ação, e eu que quero, quero… essa menina! Ela parou na frente do presidente e cochichou algo com uma cara de mandona. Apertei o botão! Olhei de cima, olhei de baixo, olhei pra ele, olhei pra ela, apertei em todos. Olhei para os lados e ninguém viu. O instante eu capturei, o segundo que esperei. Desta vez a capa não é minha, nem do editor, nem do jornalista, nem do presidente, é da menina!
Não vou me ater à história, dilemas, incógnitas, nuances da fotografia. Olhei com o foco no dia de hoje: 02 de setembro. Vou olhar com o foco na comemoração de hoje: Dia do Repórter Fotográfico. Este texto é uma breve narrativa ficcional que eu criei, a partir das minhas impressões relacionadas à fotografia de Guinaldo Nicolaevsky, sugerindo uma espécie de perfil do Repórter Fotográfico. Soube da história desta fotografia vendo uma reportagem na TV, que contou a repercussão da ação de uma garotinha diante do último presidente militar do Brasil em 1979. Quando olho para esta imagem, isolada, ela proporciona várias reflexões. Normalmente a combinação de texto e imagem, do jornalista e do fotógrafo, mantém a informação nos trilhos, digamos assim. No fotojornalismo, a imagem e a história contada em texto é feita todo dia, e hoje, não só nas folhas dos jornais (como a pouco tempo atrás) mas também nas telas dos computadores, nos sites que acessamos diariamente. As pessoas querem ver a cena e o Repórter Fotográfico estará lá para clicá-la. Agências de notícias, fotógrafos contratados, fotógrafos freelancer. Todos na cena seja ela qual for: na rua, no morro, na fazenda, no congresso, no ônibus, nas bolsas de valores, nos objetos, nos rostos, em qualquer lugar. O repórter que fixa a ação, que personifica a pauta em imagem.
