BioShock imerge o jogador em um universo belo e assustador misturando filosofia, terror e FPS

Para entender e aproveitar ao máximo o que BioShock oferece, é preciso ver o gênero shooter de maneira diferente. Matar os inimigos para terminar a fase. Geralmente FPSs são assim, tanto os de guerra como Call of Duty ou espacial como Halo. Suas tramas são boas, mas não permanecem na memória ou induzem o jogador a pensar profundamente sobre o que acabou de jogar. É nisso que o game criado por Ken Levine em 2007 se difere dos demais jogos do gênero, não impressiona pelo terror, suspense ou excelentes fatores técnicos, mas sim pela história encravada de referências filosóficas.
BioShock se passa na década de 60. Jogamos com um desconhecido a bordo de um avião que cai no meio do Oceano Atlântico. Perto dos destroços encontramos o local de acesso à Rapture, uma cidade construída em baixo do mar pelo milionário e visionário Andrew Ryan, que se cansou do capitalismo, religião e todo o resto até decidir criar uma nova sociedade. “Uma cidade onde o artista não tem medo do censor, onde o cientista não é limitado pela moralidade mesquinha”, diz o próprio Ryan em uma mensagem assim que entramos no submarino que nos conduz ao primeiro nível da metrópole submersa. Rapture seria o equivalente a “arrebatamento”, conforme tradução do Priberam, referência bíblica do Antigo Testamento para “o transporte de uma pessoa para outro lugar, especialmente ao céu”. É a mensagem implícita do criador: ao entrar no local você será transportado para um novo mundo.
Tudo vai relativamente bem até que os avanços viram problemas. Já que ninguém precisa se preocupar com ética, moral e leis limitadoras, cientistas inventam o que chamam de “plasmídios”, um soro que utiliza ADAM para alterar o código genético. ADAM é um composto bruto de células totipotentes retiradas de um parasita marinho, que dá “superpoderes” ao seu usuário, como a habilidade de lançar raios elétricos, bolas de fogo e telecinese. Mas tanta evolução tem seu preço. Psicose, loucura e degeneração dos órgãos são os principais efeitos colaterais dos plasmídios. Ficando cada vez mais escasso, crianças conhecidas como little sisters são encarregadas de recolher o ADAM dos corpos mortos. Para protegê-las, Ryan criou os robustos Big Daddies, que consistem em brutamontes em trajes de mergulho com uma broca perfuradora no braço. O abuso do uso de plasmídios pela população traz caos e destruição, transformando Rapture em um inferno rodeado de água.
Se a trama dá um ótimo filme, o título eliminou todas as CGs durante o gameplay: não existem cutscenes durante as fases. Vários relatos de moradores gravados em fitas de rádio são encontrados ao longo do percurso. Nem sempre explicativas, ouvir as gravações aumenta consideravelmente a tensão durante o andamento do jogo, principalmente no momento de explorar um local desconhecido. Rapture parece ser um ser vivo, que respira e espreita com atenção cada passo dado pelos seus sobreviventes. A exemplo de F.E.A.R. e Dead Space, a atmosfera de terror em Bioshock assusta de verdade (jogue de noite sozinho em casa e veja por si mesmo), seja pela sensação claustrofóbica, iluminação sombria, efeitos sonoros – leia-se gritos, grunhidos, rangidos de metal, barulho de água, etc. –, inimigos deformados ou pelos temidos Big Daddies.
A razão de Andrew Ryan
A maior influência para a espinha dorsal de BioShock é a obra da escritora russa Ayn Rand. Batizada como Alissa Zinovievna Rosenbaum, ela criou uma teoria filosófica conhecida como “objetivismo”. O egoísmo individual e a liberdade econômica são os principais pilares, mas entre os demais princípios do seu postulado estão: realismo na metafísica; empirismo, realismo, racionalismo e objetivismo na epistemologia; individualismo, egoísmo e racionalismo na ética; liberalismo “laissez faire” na política e capitalismo na economia. As referências ficam cada vez mais claras na medida em que se avança no jogo. Rapture é um lugar de livre comércio, livre propaganda e livre exploração científica.

“Qual é a maior mentira criada? Qual é a mais cruel obscenidade perpetrada sobre a humanidade? É o altruísmo, a ferramenta com a qual toda maldade é construída. […] É esta grande inversão, essa mentira antiga que tem acorrentado a humanidade em um ciclo interminável de culpa e fracasso”. A citação pertence a Andrew Ryan, praticamente sugada do livro Philosophy: Who Needs It, escrito por Rand em 1982. “Não podemos lutar contra o coletivismo, a menos que lutemos contra sua base moral: altruísmo. Não podemos lutar contra nada – a menos que lutemos por alguma coisa. E aquilo pelo que devemos lutar é a supremacia da razão, e uma visão do homem como ser racional”, escreveu Rand na referida obra.
No livro The New Left: the Anti-Industrial Revolution, de 1971, a autora escreve que “ao homem não é dada a escolha de ter ou não ter uma visão abrangente da vida: ele não pode sobreviver sem ela. […] Sua escolha diz respeito somente à visão que ele vai escolher, se ela é verdadeira ou falsa. Se for falsa, ela acaba por funcionar como o seu próprio destruidor”. Aqui está descrito o motivo da queda de Rapture, mesmo que esteja em camadas mais profundas e bate com um dos slogans do jogo: todos nós fazemos escolhas, mas no final são as elas que nos fazem.
Água, fogo e tiros
Claustrofobia é a sensação predominante ao andar pelas escuras vielas de Rapture, e uma sequencia nos primeiros 15 min. demonstra exatamente esta ideia. Ao passar por um túnel de vidro que liga dois prédios, uma das paredes estoura e começa a entrar água rapidamente. Claro que, independente da dificuldade escolhida, sobra tempo para chegar até a porta mais próxima, mas a cena é tão angustiante que impressiona.
Se a tensão é constante, também sobram elogios na parte visual de BioShock. As texturas da água, metais, vidros e outros objetos ajudam no ar realista do game. A fotografia e a direção de arte são fortemente inspiradas na arte déco e retrô. Todos os itens, cartazes, objetos e arquitetura do jogo remetem aos anos 60, principalmente as propagandas de produtos e comodidades espalhadas por toda cidade. O título angariou vários prêmios, entre eles melhor jogo no BAFTA e jogo do ano na IGN em 2007, e melhor direção de arte pela Academy of Interactive Arts & Science em 2008.
Não chega a ser uma inovação propriamente dita, mas o uso dos plasmídios – também poderiam ser chamados de magias – é bastante divertido, além de ser essencial para o andamento das fases, apesar da pequena variedade de plasmídios (você usará mais a eletricidade, o primeiro a ser coletado) e armas normais, como armas normais entende-se revólveres, metralhadoras, granadas e pé de cabra ao mesmo tempo – fator corrigido em BioShock 2. Se para o medidor de vida você usa os clássicos kits médicos, para a manutenção das magias é utilizado EVE, um líquido azul injetado diretamente na veia.
Enfrentar um Big Daddie é o ápice do desafio. Apesar do tamanho e do peso da roupa de mergulho – e da sinuosa broca –, eles se movem rapidamente e não perdoam qualquer um que se chegue perto das little sisters. Ao se aproximar da dupla é possível perceber outra grande qualidade do jogo: os efeitos sonoros. O chão treme com os passos do gigante enquanto a pequenina entoa canções dignas de filmes de terror. Não se engane, muitas balas, EVE, lifes e continues serão usados para subjugar os protetores gigantes.
Se Rapture não durou muito tempo, a saga de BioShock ainda não teve fim. O lançamento do segundo episódio, BioShock 2, foi em fevereiro de 2010, três anos depois do antecessor e foi bastante elogiado por sites, revistas e jogadores. O suposto final irá acontecer em 2012, com BioShock Infinite, escolhido na E3 2011 como o melhor jogo da feira. Aqui uma mudança: a história será em Columbia, uma cidade aérea construída em 1912. O cenário pode mudar, outras histórias e explicações poderão surgir, mas tudo se voltará para o que aconteceu naquela cidade submersa.
httpv://www.youtube.com/watch?v=Lmw78t8NgIE
httpv://www.youtube.com/watch?v=1sjCQI5k1_4&feature=related
Bioshock
[xrr rating= 5/5]2kGames – Para PC, Xbox 360 e PS3
PRÓ– História filosófica e clima de terror
CONTRA
– Não dá para usar armas e plasmídios ao mesmo tempo


Bioshock