Uma infinidade de vocábulos inexplorados na língua portuguesa: essa é a principal descoberta do leitor da obra “O menino que vendia palavras”, de Ignácio de Loyola Brandão. O livro, vencedor do Prêmio Jabuti, em 2008, como melhor ficção do ano, é uma literatura infanto-juvenil que desperta a curiosidade sobre a imensidão de palavras do oceano lingüístico no qual poucos se atrevem a navegar.
A publicação de 2007 conta a história de um menino que se insere no mundo das palavras depois que é apresentado à enciclopédia pelo seu pai, um homem que conhecia uma infinidade de vocábulos. Aproveitando-se da curiosidade dos seus amigos – e da sabedoria do pai -, o menino decide criar um pequeno “negócio”: troca a denotação das palavras por comida, fotos ou brinquedos. Não é difícil prever que o grande desafio na história era encontrar um termo que o pai desconhecesse. No entanto, o menino não imaginava que, com o passar do tempo, descobriria algo que valia muito mais que os bens materiais adquiridos.
As páginas coloridas dão ao enredo um tom dinâmico, ao passo em que uma série de termos incomuns destaca a riqueza da nossa língua, parcialmente anônima para a maioria dos falantes e escritores desta mãe gentil. Narrada em primeira pessoa, a história cativa pela simplicidade que, de palavra em palavra – popular ou não -, tece a curiosidade de desfrutar dos recursos lingüísticos oferecidos pelo domínio do português. Leitura leve e concisa, que culmina em um desfecho que serve de lição até mesmo para os adultos, principalmente os acomodados com a prolixidade do dia-a-dia.
Ao encontrar uma palavra cujo significado era desconhecido do pai, do menino e da própria enciclopédia, o protagonista se sente embaraçado de assumir que, simplesmente, não sabe. Através da aparente “derrota”, ele finalmente aprende que ninguém sabe tudo, ninguém acerta sempre, e que o conhecimento é um bem mais gratificante que qualquer doce.
O desfecho da história não poderia ser mais condizente e irônico: “Nunca mais esqueci isso. Não se joga com jogos sujos. Meu pai sabia das coisas. Sabia bem como se joga na vida”. O menino aprendeu a gostar das palavras, a devorar os vocábulos e seus significados no dicionário, mas o maior aprendizado veio com a vida – coisa que livro algum pode ensinar. Ao ser enganado pelos amigos, que solicitaram saber a denotação de uma palavra que sequer existia, o menino conheceu o significado de trapaça e, com essa nova aquisição, descobriu que honestidade e dignidade não podem ser compradas, e valores não podem ser negociados: nem mesmo por um sorvete de picolé.
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