
A arte de escrever um bom livro supera qualquer conhecimento prático existente numa determinada área. A renovação da linguagem, exposta na realidade nua e verdadeira do papel, não deixa dúvidas de como podemos transgredir nossos conhecimentos, superar o nosso senso de comum e fazer transparecer aquilo que de mais nítido criamos.
O livro Se Eu Fechar Os Olhos Agora, do jornalista Edney Silvestre, parece ser uma sopro de novidade no barulhento e estridente universo dos prosadores contemporâneos. Misturando enredos diversos, Edney consegue trazer – com a argúcia de quem por quase 30 anos é correspondente internacional – uma literatura de suspense que nos impressiona pela capacidade de envolvimento e materialização dentro da história narrada.
A trama se passa no interior do Rio de Janeiro, numa cidade imaginária que traz significativas referências a Valença, terra natal do escritor, na década de 1960. Depois de encontrar o corpo de uma jovem nua morta, desfigurada e com sinais de mutilação, os dois rapazes de 12 anos – inicialmente tratados como suspeitos do crime – iniciam uma busca por respostas que deixassem mais claro o que se passou no local.

Duas características sociais marcantes da vida dos personagens principais trazem para o romance uma característica muito realista: os jovens, que moram numa cidade do interior, buscam a cada dia a auto-afirmação. Com a história do assassinato que presenciam, acabam subvertendo etapas graduais da ascensão progressiva da maturidade, algo que para os parâmetros uma cidade interiorana, pacata e rural, assusta e confunde as (agora) ex-crianças.
Outra ferida exposta no livro é a sensação de indiferença e desigualdade entre os distintos personagens e os protagonistas. A corrupção entre os poderes, a falta de comprometimento na elucidação do crime, o jogo de intriga nos bastidores do poder… Tudo condiciona os jovens a tentarem entender – na profusão de acontecimentos que presenciaram – como a sociedade se comporta, ou como deveria se comportar.
Nos últimos anos, Silvestre tem se dedicado à literatura com singular afinco. O jornalista é o responsável por um programa semanal no canal por assinatura GloboNews, que debate, discute e entrevista os autores de livros em lançamento no mercado editorial, apresentando ao grande público as novidades da área.
Com o livro, Edney ganhou muitos prêmios, entre os quais o Jabuti de Melhor Romance e o Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria estreante. O gosto pela literatura, porém, já é antigo. Dois livros de crônicas com textos como correspondente internacional nos EUA e relatos de experiência profissional de atuações em países tão diversos como os do Oriente Médio e Cuba compõe o histórico profissional do autor, que fazem do autor estreante no gênero um personagem novato dentro da sua proposta, mas não inexperiente nos seus enredos.
Confira uma entrevista com Edney Silvestre sobre o processo de criação da obra:
httpv://www.youtube.com/watch?v=X8aZHqipWsc
Assista a minha opinião sobre o livro.
httpv://www.youtube.com/watch?v=AvsLoPQrzl0
