A obra “Cadeiras Proibidas” de Ignácio de Loyola Brandão traz 32 crônicas dispostas em oito subdivisões: Cotidiano, Corpo, Clima, Mundo, Indagação, Descoberta, Ação e Vida. Publicado em 1984, o livro propõe uma abordagem extremamente hipotética em seus textos, apresentando personagens como o homem cuja orelha crescia, outro que tinha um furo na mão e os homens que se transformavam em barbantes. A pouca variação entre os títulos contrasta com a criatividade inesgotável na criação de situações irreais e perfeitamente incomuns do cotidiano.
Ao transcorrer os olhos pelas páginas do livro, os mais conservadores e adeptos do conceito de crônica, fiel a situações do dia-a-dia e à familiaridade entre leitor e escritor, podem encontrar certa resistência na leitura. Logo na primeira, é possível perceber que a finalidade do autor é justamente fugir ao senso comum. Ou alguém já ouviu falar de um homem que espalhou o deserto? Ou que viu os postes se dobrarem? Quem sabe, um homem que atravessava portas de vidro? Se houver resposta positiva para quaisquer destes questionamentos, Brandão terá que rever sua proposta literária.
Apesar da falta de lógica que escorre na maior parte das histórias, algumas crônicas ainda sustentam um singelo vínculo com a realidade. Em “O homem que resolveu contar apenas mentiras”, por exemplo, encontramos uma história que pode ser relacionada ao filme estrelado por Jim Carrey: O Mentiroso (1996, USA). Na obra de Brandão, o homem optou por contar apenas mentiras, enquanto, no filme, advogado Fletcher Reede é impedido de mentir. Embora sejam situações opostas, ambas ilustram a oposição entre verdade e mentira. Outra crônica que representa uma proximidade maior com o leitor é “O homem que queria eliminar a memória”, pois esse é um desejo compartilhado por grande parcela da sociedade: a vontade de esquecer o que lhe convier. A publicação de 1984 dava o prognóstico do objetivo comum do século XXI, embasado, inclusive, nas redes sociais: doses de amnésia ou memória seletiva.
Dentro do capítulo intitulado “Descoberta”, uma crônica chama a atenção por beirar o limite entre a realidade o hipotético. “O homem que telefonou para ele mesmo” – além de atestar a opção do autor por figuras masculinas em suas histórias – relata, como próprio título sugere, o caso de um homem que decidiu ligar para si mesmo e estava ocupado. Mesmo parecendo loucura ou, até mesmo, estupidez, é possível se identificar com o texto, porque, em algum momento da vida, muitas pessoas tiveram essa mesma curiosidade saciada. Se observado atentamente, os textos atingem o seu propósito: levar o leitor para uma fuga completa à realidade e, vez que outra, como que se para resgatar a atenção, surgem alguns elementos arranjados propositalmente para recuperar o vínculo com o cotidiano.
A obra é recomendada a aqueles que não temem um desregramento e apreciem criatividade exacerbada, sem restrições as peripécias da mente humana. Caso contrário, a leitura se tornará exaustiva, devido à busca por elementos reais que aparecem, mas não com a frequência que os leitores de revistas e jornais estão acostumados. Os olhos estranham a excentricidade das situações, mas a razão permite admirar a astúcia e ousadia do autor em verbalizar aquilo que, fosse outra pessoa, manteria aprisionado em pensamento como loucura absoluta.
Um trechinho de “Cadeiras Proibidas” – “O homem que se endereçou”:
Apanhou o envelope e na sua letra cuidadosa subscritou a si mesmo. Narciso, rua treze, nº21. Passou cola nas bordas do papel, mergulhou no envelope e fechou-se. Horas mais tarde a empregada colocou-o no correio. Um dia depois sentiu-se na mala do carteiro. Diante de uma casa, percebeu que o funcionário tinha parado indeciso, consultara o envelope e depois prosseguira. Voltou ao DCT, foi colocado numa prateleira. Dias depois, um novo carteiro procurou seu endereço. Não achou, devia ter saído algo errado. A carta voltou à prateleira, no meio de muitas outras, amareladas, empoeiradas. Sentiu, então, com terror que a carta se extraviara. E Narciso nunca mais encontrou a si mesmo.
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