
[stextbox id=”custom”]Algumas construções e mentalidades ainda não estão preparadas para incluir o deficiente físico na sociedade.[/stextbox]
Um tema em constante debate hoje é a acessibilidade. O direito de ir e vir garantido para todos. Poder entrar em qualquer lugar sem ajuda de ninguém. Seja deficiente ou não. Seja idoso ou jovem.
A mentalidade de um passado não muito distante sugeria ao deficiente físico e ao idoso que ficasse trancado em casa. Isso mudou, mas muitos locais não estão preparados para novos tempos de inclusão social e adaptação. Escadarias insistem em ser o pesadelo constante de deficientes em edificações mais antigas. Um simples degrau representa, por vezes, um obstáculo insuperável – que dirá uma série deles.
Nas ruas, o que mais se vê são rampas inclinadas demais, degraus inconvenientes, calçadas mal conservadas. Barreiras que, mesmo para quem não tem alguma necessidade especial, podem representar acidentes, torções e machucados.
[stextbox id=”custom”]Deficientes versus Cidade[/stextbox]
Elvira Eckert teve poliomielite. Como sequela, um problema físico na perna. Embora consiga se locomover sozinha e andando, barreiras impedem o livre trânsito em determinados pontos. Na esquina da Rua General Netto com a Morom, em Passo Fundo, encontra-se um de seus maiores problemas. A caminho da Catedral, impedimentos em ambos os canteiros centrais: a rampa ao lado da antiga Banca Pinguim está fora de qualquer padrão – é como se fosse um degrau inclinado. No outro canteiro, nem sequer há uma rampa. Dona Elvira, se quiser passar pelo local, precisa desviar pela via asfaltada e concorrer com os automóveis que passam pela rua. Uma ação simples do poder público resolveria esse caso. “Nos últimos anos, já fui três vezes à Prefeitura solicitar a adaptação do local”, denuncia Elvira. “Não tive sucesso em nenhuma das tentativas”. Enquanto isso, ela teme pela segurança, a própria e a dos demais pedestres. Como se não bastasse, Elvira fica constrangida com os olhares das pessoas na rua: “As outras pessoas têm dificuldade para entender por que atravesso assim, me olham e acham que faço para aparecer”, desabafa.
Em contato via e-mail, a secretária de Transportes e Serviços Gerais, Mariniza dos Santos, afirma que o caso será resolvido. A obra de adaptação estava inicialmente prevista para ficar pronta até o fim de junho, porém a grande quantidade de chuvas no período atrasou o prazo. Assim que o material e o local estiverem devidamente secos, o conserto será efetuado. Mariniza ainda destaca que a administração está atenta para as questões de acessibilidade. “Já está licitada a reforma e adaptação da Praça Ernesto Tochetto, no centro da cidade”, relata.
[stextbox id=”custom”]Universidade e seu papel de inclusão[/stextbox]
Na Universidade de Passo Fundo, inúmeras são as medidas de adaptação a pessoas com deficiência. Na instituição, trabalha-se com o conceito de inclusão: não basta que o conjunto arquitetônico esteja acessível, as atitudes do aluno deficiente, do professor e dos colegas são o maior foco de interesse.
Segundo a coordenadora do SAEs, Teresinha Bastos Scorsatto, há uma dificuldade do ser humano em conviver com quem é diferente. Ao mesmo tempo, costumeiramente há uma má vontade, um desinteresse da sociedade na inclusão. A maior barreira é, sem dúvida, a questão da atitude, como destaca Ana Paula Freires, fisioterapeuta do SAEs: “O fator histórico interfere – e muito – no comportamento. Considerando que a inclusão é uma via de mão dupla, todos têm que efetivamente se envolver para que ela aconteça. Não só a comunidade acadêmica, como também o aluno deficiente”.
[stextbox id=”custom”]Arquitetura se adapta a novos tempos[/stextbox]
Desde 2010, a ABEA, Associação Brasileira de Ensino da Arquitetura e Urbanismo, recomenda que a acessibilidade seja assunto das aulas do curso referido. Na UPF esse ensino já é desenvolvido há muitos anos. Novas construções já devem contemplar significativas mudanças. Deve-se pensar em um conceito de acessibilidade universal, onde todos podem circular sem barreiras – além de ajudar o deficiente, proporcionando-lhe plena passagem, o arquiteto ainda ganha uma nova área para atuação e trabalho.
O curso de Arquitetura e Urbanismo da instituição promove com certa frequência – há cerca de dez anos – oficinas de conscientização para seus alunos. Em sua edição mais recente, os professores Adriana Gelpi, Rosa Maria Locatelli Kalil e Luiz Roberto Gosch ministraram uma palestra sobre a importância do tema para o desenvolvimento de novas construções e adaptação das antigas. Após, os alunos sentiram na pele as necessidades que os deficientes enfrentam. Alguns foram vendados, simbolizando o desafio do deficiente visual, outros usaram muletas e outros, cadeiras de rodas. Os alunos então circularam em um percurso dentro da Universidade para detectar os maiores problemas.
Com o apoio da empresa Ortotec – que cedeu os equipamentos – e da Coleurb – que cedeu um ônibus, para que se fizesse uma demonstração sobre os elevadores em veículos adaptados – cerca de 20 alunos puderam vivenciar a experiência. Adriana Gelpi destaca que essa oficina obteve tanto sucesso nas vezes que foi realizada que ela já foi levada para outras cidades do Rio Grande do Sul, como Santa Maria, e outros estados, como o Acre.
Rosa Kalil conta que a conscientização e o conhecimento dos profissionais sobre o assunto colaboram para que os projetos já sejam adequados em obras novas ou adaptados nas reformas e revitalizações. Ao verem que as normas e legislações já são aplicadas, tudo se torna natural, uma atividade normal, uma necessidade do projeto e da construção. Quanto à oficina, a professora afirma que, devido à parte prática, não há como o acadêmico não entender conceitos como os de desenho universal, acessibilidade e inclusão social. Ao fim, percebe que um simples planejamento pode evitar transtornos e proporcionar direito a inclusão e a demais benefícios sociais. A professora diz ainda que, com o passar dos anos, é grande a satisfação ao ver ex-alunos contribuindo e aplicando o conhecimento adquirido. “Mesmo quando são outros profissionais, a conscientização auxilia em uma percepção mais apurada do espaço e dos direitos. A comunidade sempre fica muito curiosa e também recebe um aprendizado indireto pela visualização do grupo fazendo a simulação e a experimentação dos ambientes”, relata a professora de Arquitetura.
[stextbox id=”custom”]Pesquisa visa adaptar todo o campus[/stextbox]
Se a própria Universidade tem graves problemas de acessibilidade, de nada serve ensinar sem dar o exemplo concreto. E é exatamente por isso que o Campus I da UPF será, em breve, completamente adaptado. A meta faz parte de um projeto de pesquisa desenvolvido pelo curso de Arquitetura e Urbanismo, em parceria com o SAEs. Estagiários e professores pretendem detectar os problemas do espaço, localizado no Bairro São José, e usá-lo como modelo para cidades da região e, inclusive para Passo Fundo. A coordenadora do curso, Eliane Panisson, destaca que o campus remete a uma situação urbana completa. Por isso, foi escolhido para testar as novas medidas.
Dentro das normas arquitetônicas, recentemente um dos principais pontos da cidade foi devidamente adaptado: a Praça Tamandaré. Localizada próximo à Paróquia Nossa Senhora da Conceição, ao Hospital São Vicente de Paulo, a duas escolas e a uma grande zona residencial e clínica, a praça agora conta com rampas padronizadas, pisos direcionais podo-táteis – para deficientes visuais – e uma série de medidas facilitadoras da circulação.
[stextbox id=”custom”]Normas técnicas: mudanças à vista[/stextbox]
Desde 2004, a NBR 9050, formulada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT -, prevê a acessibilidade em edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. A norma visa desenvolver critérios e parâmetros para tais projetos, assim, facilitando a utilização, locomoção e acesso de qualquer pessoa, seja ela quem for. Ao longo de quase cem páginas, o documento traça um panorama que passa de símbolos a construções, de medidas a regras, em ruas, sanitários, entradas e saídas, entre outros.
Quanto ao transporte público urbano, a NBR 14022 é quem prevê a acessibilidade. Desde 2009, a ABNT solicita que os ônibus comuns, de piso alto, saiam de fábrica com elevadores. O elevador só é dispensado em caso de ônibus com embarque e desembarque ao nível do chão. Para esses, o espaço precisa estar livre e a estrutura urbana é quem deve ser inteiramente adaptada.
Os ônibus fabricados a partir de 1997 também devem ser modificados. Para estes, as regras são mais brandas a fim de que o investimento não pese tanto no bolso dos proprietários. Ainda assim, ajudam – e muito – a quem precisa.
Inúmeras determinações estão presentes na norma. Entre elas, os balaústres ou colunas obrigatoriamente na cor amarela e com presença de dispositivo tátil, em certos espaços. O lugar reservado aos cadeirantes deve deixá-los acomodados e virados para frente. O veículo, devidamente identificado com o Símbolo Internacional de Acesso (SIA), ainda deve contar com letreiros de itinerários padrões (no caso dos eletrônicos, nas cores amarelo-âmbar ou branca), a fim de proporcionar a legibilidade universal, ou seja, que todos enxerguem. Outras informações específicas devem ser empregadas e descritas no corpo do ônibus.
Dona Elvira Eckert, como você leu no início da reportagem, sente dificuldade para chegar a locais pouco acessíveis: “Mas também tenho problemas nos ônibus. O degrau é muito alto e por isso eu deixo de ir a vários lugares”, conta. Elvira e tantos outros ainda podem se considerar à margem da sociedade. Mas tudo pode mudar, depende apenas de pequenos detalhes urbanos e mudanças de mentalidade. É por isso que a acessibilidade e a inclusão precisam ser colocadas em prática: algo tão simples a nós e tão fundamental a eles. Afinal, você está preparado para receber seus convidados?
Texto e fotos: Roberto Biluczyk
Aluno do VI Nível do Curso de Jornalismo da UPF
