por Camila Pagno*

Para quem acompanha os noticiários na TV ou lê regularmente os jornais, não é novidade que o Oriente Médio esteja em guerra. Ponto estratégico do mapa político para os negócios, por causa das reservas de petróleo, a região também é um dos principais centros espirituais do mundo, pois nela nasceram duas das cinco religiões com o maior número de fiéis já registrado até hoje: o cristianismo, o islamismo e o judaísmo. O resultado desta diversidade, aliado ao seu patrimônio natural, são as inúmeras disputas entre países desta ou de outras regiões, e até mesmo dos povos de um mesmo país, cujo objetivo seria demarcar as fronteiras dentro das quais explorariam suas riquezas e imporiam sua fé. Aliás, para muitos críticos, esta imposição é o principal problema da guerra no Oriente Médio. Pautados pelo fanatismo religioso, certos grupos justificam suas ações, que em geral levam a morte de centenas de pessoas, inclusive deles próprios. Mas o que é o fanatismo?
Fanatismo é uma palavra de origem francesa, “fanatisme”. Significa o estado psicológico de fervor excessivo, irracional e persistente por qualquer coisa ou tema, historicamente associado a motivações de natureza.
O cinema, por exemplo, já retratou este estado de um pessoa ou grupo inúmeras vezes, como no documentário “Noite e Neblina”, de Alan Resnais, que trata do Holocausto:
httpv://www.youtube.com/watch?v=9e8iCXLslgE
E, atualmente, no filme “A onda”:
httpv://www.youtube.com/watch?v=ZbyCJEIRBaA
Para falar sobre o fanatismo e com isso compreender o que acontece no mundo ao nosso redor, conversamos com a psicóloga Helenita Ferrari, professora da Universidade de Passo Fundo.
O que, psicologicamente, é considerado fanatismo?
O fanatismo é uma espécie de revolta, contra algo que não tiveram, que faltou nas pessoas que o vivem, e que elas querem e precisam suprir de fora. Encontrar fora, em um movimento, um ideal que falha dentro. Porque se eu tenho ideais, eles são construídos na infância. O que eu quero ser, o que eu gosto, o que eu preciso. Se falho nisso eu preciso pegar emprestado de outros, aí vem a ilusão, que é uma falsa crença de que isto pode estar em algum lugar. Em uma pessoa, em um Deus, acho que é mais ou menos aí que reside o fenômeno do fanatismo, da crença, do misticismo, que busca em uma outra coisa algo que não está dentro de si. E que precisa deste movimento forte, de fora, para se sentir protegido, nesta falta que vem de dentro.
Ficam postas fora do sujeito as soluções, a felicidade, a mudança social, em um movimento, junto com outras pessoas. O fenômeno está relacionado com a junção de pessoas. Quanto mais pessoas, parece que mais forte o sujeito fica. É como se ele precisasse de um bando de gente para sustentar uma ideia e para defender e ficar protegido nisto. E isto é patológico porque não considera o indivíduo, as necessidades do indivíduo, é uma coisa que o grupo quer. Uma massa.
Então o fanatismo pode estar ligado a quais patologias?
Patologias de falha, falhas de ideais, de o sujeito sentir que ele é algo, então ele precisa estar em uma coisa para sentir que é respeitado, protegido e amparado. Falhas narcísicas, afetivas, esquizo-afetivas, se a gente fosse pensar em patologias, patologias do vazio, do sentido de ser, de existir.
Então o fanatismo pode ser considerado uma doença?
Se tu olhar para a singularidade do sujeito, que cada um encontra a sua verdade, a gente não considera uma doença. Mas se considerar que faz mal a outros, que aliena pessoas, que elas deixam de pensar com sua própria cabeça, e aderem algo que é estabelecido por outros, aí então vira uma doença, porque produz um processo de alienação, pois a pessoa deixa de ter seu próprio querer, sua decisão própria.
O fanatismo pode sim ser também individual, não precisa estar relacionado com grupo, mas é sempre uma atribuição a outro, então fica no sujeito isso, é uma doença. Porque é um exagero. Fanático é mais do que gostar. O excesso disso é que é a patologia.
E há alguma especulação sobre o que move as pessoas, além deste buscar fora de si algo que não se encontra dentro?
É um valor, é uma referência, é uma segurança, é um porto seguro. É uma religião. A religião é uma proteção. Acho que é por aí.
Tu falaste que o fanatismo pode não ser maléfico quando não interfere em outras pessoas. Mas quando este gosto pode se tornar além da conta, pode se tornar uma doença?
Por exemplo, o terrorismo. Defender uma coisa que não considera a vida dos outros. Considerar que o ideal é aquele e o resto que se dane. Isso leva ao terror, à segregação, isso pode levar a uma série de coisas que causam danos.
O fanatismo pode ser uma consequência da civilização?
Pode ser uma consequência da civilização, e da não civilização ao mesmo tempo, porque se o homem evolui ele deixa de ser fanático. Ele é um crente, ele acredita, mas não hipervaloriza algo.
E tu já observaste casos que fogem do mais peculiar que a gente vê da religião, do time, da banda, do fanatismo, algum fanatismo diferente?
Sim, de pessoas tatuarem o símbolo do time em uma parte do corpo. De discriminarem completamente outro time. De avançarem em direção, e isto é um exagero que resulta que pode complicar a vida do sujeito, que pode provocar discórdias, desavenças, brigas, mortes.
Por exemplo, os nazistas, o movimento que ainda existe dos caras se tatuarem a cruz nazista. Os símbolos. São consequências do extremo. Aquilo tem que ser tatuado, aquilo tem que ser mostrado, exibido, é uma afronta ao outro. Porque eu posso acreditar muito, não preciso sair por aí afrontando com o que eu acredito.
Pode-se dizer então que o fanatismo está intrínseco à intolerância?
Não sei se a intolerância ou a ausência de uma crença real, a impaciência talvez com que existe, e a criação de algo supostamente melhor, acho que neste sentido, sim, dá para dizer intolerância. Não acreditar no que existe, criar uma realidade diferente, florear, estampar, e isto pode ter um fio associativo com a intolerância. Mas é muito mais complexo. Muito mais do que só isso.
Existe tratamento, existe uma mudança que possa ocorrer em uma pessoa fanática?
Difícil, porque se tirar o fanatismo às vezes a pessoa se perde. Não sabe mais quem ela é, por que ela é, por exemplo, daquele time, daquele bando, daquela bandeira. Quando tirar aquilo dela é como tirar quem ela é. Às vezes, é complicado. Ela precisa disso. Ser alguém.
* Camila é estudante do nível VII do curso de Jornalismo da Faculdade de Artes e Comunicação UPF. E-mail: camilapagno@hotmail.com
