Violência contra a criança questiona o caráter do jornalismo e os limites da cobertura entre a divulgação das informações para proteção dos direitos ou para exploração da tragédia em busca de audiência
Manchetes sobre violência infantil estampando as capas de jornais e pautando os veículos de comunicação já não são mais novidades. O último caso que chocou o país, conhecido como “Massacre de Realengo” (ver box abaixo) , foi apenas o mais recente sucessor de uma trágica linha do tempo marcada por sofrimento, mortes e injustiça. Quando uma fatalidade como esta acontece, a sociedade é bombardeada durante dias com centenas de informações que fazem questionar o papel social da mídia e em que ponto se encontra o limite entre a informação e o sensacionalismo.
Relembrando os crimes cometidos ao longo dos anos e que envolvem violência contra a criança, o professor do curso de Jornalismo da Universidade de Passo Fundo, Francisco Menezes, explicou que os últimos casos de exposição de crianças na mídia ficaram marcados pela utilização serial da cobertura. “O interesse quando uma notícia envolve crianças é grande. Quando envolve crianças vítimas de violência cometida de forma abusiva e covarde esse interesse aumenta muito mais. Então, a mídia explora o assunto intensivamente nos primeiros dias e depois o mantém nos noticiários de uma forma mais tranquila”. Segundo Menezes, a aliança entre criança é crime é bombástica em termos de interesse geral da audiência.
Ao tentar chegar a uma conclusão sobre o papel social do Jornalismo ao lidar com casos trágicos, Menezes aborda a ideia de que o público é tão responsável pelo sensacionalismo quanto os meios de comunicação. “O número de pessoas que se liga no Jornal Nacional no dia de uma notícia de comoção pública é muito maior. As pessoas vão fazer zapping na televisão pra buscar programas que estejam falando sobre o assunto. O jornalismo tem que tratar desses assuntos, não é possível virar as costas e fingir que esse tema não é de interesse público, mas, em contrapartida, o público alimenta esse tipo de cobertura sensacionalista”. O professor ressalta também que essa “preferência” do público por tragédias tem raízes históricas, pois o homem é um animal violento por natureza.
Para elucidar melhor as conseqüências da violência na vida e na aprendizagem das crianças, a Coordenadora do Curso de Pedagogia da UPF, Sylvana Carpes Moraes, explica que os bloqueios emocionais sempre vão interferir na aprendizagem. “Nós somos um todo, nós nos desenvolvemos de uma forma integral. Então, aquelas crianças que passaram por essa experiência vão ter que ter ajuda para superar a situação vivida e conseguir a partir disso ter um processo normal de aprendizagem”. Segundo ela, o auxílio da escola e dos pais é essencial para ajudar a criança a lidar com o trauma, desde a tranquilidade do professor em sala de aula até o apoio psicológico oferecido por profissionais. Quanto à cobertura midiática, a pedagoga não considera apropriada a atenção dada pelos meios de comunicação às tragédias. Para Moraes, o espaço oferecido pela mídia pode incentivar a criança a assimilar as informações transmitidas pelos meios de comunicação como um comportamento normal. “Embora reflita a realidade, a violência poderia ser abordada com mais cuidado”, conclui.
A sociedade explicita, diariamente, o seu interesse privilegiado por notícias sangrentas, fazendo com que a mídia transborde disposição em ceder um espaço gigantesco para cobrir tragédias. Seja pelo papel social de informar ou para lucrar com o aumento da audiência, os meios de comunicação oscilam entre o papel de lobo e cordeiro. Enquanto não se chega a um veredicto sobre em qual pele se esconde os princípios da informação, as crianças continuam sendo vítimas de carrascos que deveriam ser seus alicerces: família e escola.
Direitos das crianças
Em casos de violência contra a criança, é esperado que as políticas públicas desenvolvam os projetos necessários para oferecer assistência social. De acordo com o Artigo 70 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), “é dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente”. As entidades, como o Conselho Tutelar, são responsáveis por planejar e executar programas de proteção e sócio-educativos, oferecendo orientação e apoio sócio-familiar.
O Conselho Tutelar fica localizado na Rua General Osório, 1301, no Centro de Passo Fundo. O telefone para a Microrregião I é (54) 3312.1588 e para a Microrregião II (54) 33123699. O horário de atendimento ao público funciona das 8h às 11h30min e das 13h30min às 17h.
[poll id=”3″]Relembre os principais casos de violência envolvendo crianças que chocaram o país:
7 de fevereiro de 2007 – Caso João Hélio: João Hélio Fernandes Vieites, de 6 anos, ficou conhecido em todo o Brasil no dia 8 de fevereiro, após sua morte traumática na noite anterior, quando o carro em que ele estava com a mãe foi assaltado. Os assaltantes arrastaram o menino preso ao cinto de segurança pelo lado de fora do veículo.
29 de março de 2008 – Caso Isabella Nardoni: Isabella de Oliveira Nardoni, de 5 anos de idade, foi defenestrada do sexto andar do Edifício London no distrito da Vila Guilherme, em São Paulo. O caso gerou grande repercussão nacional e, em função das evidências deixadas no local do crime, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, respectivamente pai e madrasta da criança, foram condenados por homicídio doloso triplamente qualificado.
13 de outubro de 2008 – Caso Eloá Cristina: Lindemberg Fernandes Alves, 22 anos, invadiu o domicílio de sua ex-namorada, Eloá Cristina Pimentel, de 15 anos, no bairro de Jardim Santo André, em São Paulo. Após mais de 100 horas de cárcere privado, os policiais invadiram o apartamento e ouviram um disparo de arma de fogo. Eloá Pimentel, baleada na cabeça e na virilha, não resistiu e veio a falecer por morte cerebral confirmada às 23h30min de sábado, 18 de Outubro de 2008.
7 de abril de 2011 – Caso Realengo: Massacre de Realengo refere-se ao assassinato em massa ocorrido por volta das 8h30min da manhã na Escola Municipal Tasso da Silveira, localizada no bairro de Realengo, na cidade do Rio de Janeiro. Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, invadiu a escola armado com dois revólveres e começou a disparar contra os alunos presentes, matando doze deles, com idade entre 12 e 14 anos. Oliveira foi interceptado por policiais, cometendo suicídio.
(Fonte: Wikipedia)
