
O amargo requinte da decadência. Pat Garret & Billy the Kid começa, não à toa, com uma cena movida à discussão sobre posse de terras, um tema caro ao gênero em que se situa. O diálogo não tem relação com o restante do filme, mas Peckinpah move seu filme em um terreno que fica explícito desde o início, e que já havia sido recuperado em “Meu Ódio Será sua Herança”: a decadência do velho oeste, de seus princípios, das linhas-guia que moveram o gênero em seu período de ouro.Não é mera coincidência, também que Peckinpah quase repita a cena de abertura de “Meu Ódio…”: naquele filme, crianças se posicionavam em torno de um pequeno rinque improvisado para assistirem formigas devorando um escorpião. Não satisfeitos, incendiavam os dois lados do embate, em júbilo. Essa linha delicada entre inocência e selvageria é cara ao diretor. Em “Pat Garret…” o grupo de Billy the Kid faz tiro ao alvo em galinhas enterradas até o pescoço, sem possibilidades de fuga ou salvação. O que resta daquelas que são alvejadas na cabeça acabam nas mãos de crianças, que saem correndo com elas na mão, rindo. Nada mais lembra as crianças de westerns como “Shane”, pudicas, inocentes. De forma geral, Peckinpah construiu sua carreira dentro do gênero pregando o fim de um tempo, as mudanças de um país e, por conseqüência, do próprio gênero.
– Parece que os tempos mudaram! diz Garret em um encontro com o ex-colega Billy. A visita é uma cortesia, Garret diz ao fora-da-lei que em cinco dias ele começará a caçá-lo.
– Os tempos talvez, mas não eu – retruca Billy. Mais adiante, ele lembrará a um de seus colegas que, ironicamente, há pouco tempo atrás ele estava ao lado da lei e Garret era o fugitivo. O principal mote narrativo do filme de Peckinpah é que Billy é um resistente. Ele preserva os velhos valores, resiste ao avanço do progresso, às mudanças. É um romântico, e quase um herói dentro dessa diegética clássica do gênero. Tem trânsito livre pelas pradarias, é recebido e tratado com respeito por populares, tem amigos espalhados por todos os lados. Garret, por sua vez, representa o fim dessas tradições. Está ao lado da lei, mas é o traidor. “Nós rapazes não devíamos ficar uns contra os outros” brada um dos colegas de Billy, pouco antes de ser morto por Garret. E é Billy, o vilão, que não atira em Garret quando tem a chance simplesmente porque “ele é meu amigo”, em suas palavras.
O culto a essas tradições por parte de quem deveria ser o vilão sinaliza um processo de desconstrução do gênero com o qual Peckinpah recheia praticamente toda sua carreira dentro do western. Ele é explícito em seus roteiros – e aqui mesmo, Garrett exclama, em determinada ocasião, que o país em que eles vivem, da maneira como eles viviam, está morrendo. Mas Peckinpah não se apóia apenas nessa constatação para transformar “Pat Garret & Billy the Kid” em um filme que expresse desilusão e decadência. Ele não transforma os duelos de seu filme em um momento sublime: eles são secos, sem opulência. São crus como é a visão de que tudo aquilo é passado. A trilha, toda ela na voz de Bob Dylan, aponta na mesma direção, e em um único momento de poesia, Peckinpah se permite a construir uma das mais magníficas cenas de sua carreira: quando um veterano homem da lei baleado em um tiroteio cambaleia em direção a um lago, dando as costas a tudo. Sua companheira solta as armas e o acompanha de longe. Ele senta-se à beira da água, com as mãos sobre o peito, a respiração pesada, o olhar perdido em direção ao sol que se põe. Ao fundo, a voz de Dylan ecoa “Knockin’ on Heaven’s Door”. Ao lado dele, sua companheira apenas chora consolada. Não há palavras, apenas olhares.
Às portas da morte, a sensação é a mesma que emana do filme inteiro: está tudo acabado. O sabor desse retrato decadente, quanto mais passa o tempo, mais forte fica, e isso não é demérito algum. Pelo contrário: como os bons vinhos, o filme de Peckinpah só é beneficiado com a passagem do tempo.
[xrr rating= 4/5]